sexta-feira, dezembro 29, 2006

O Mateus. Porque é único.

Conheci o Mateus provavelmente no ano de 1991. Nunca me despertou a atenção, até que, pelos anos de 1994, trocámos umas palavras e eu senti muita empatia com ele.
Foi desde logo uma daquelas amizades que nunca teve nada por detrás. Nunca vi no Mateus qualquer encanto para além do amigo. O inverso também acredito que seja verdadeiro.
Um dia, algures em 1997, o Mateus assumiu que andava com o Zé Pedro. Terei sido das primeiras a ir com eles à praia, à célebre 19, onde a única pessoa vestida era eu e os pares que passavam me gritavam ofensas por estar no meio de um casalinho. Depois disso, fomos muitas vezes à praia. Ouviamos Marisa Monte - o "Bem que se quis"-, fumavámos e até bebíamos.
Ao meu bom velho estilo, foi a única que teve coragem de perguntar quem é que era o activo (não foi bem isto que eu perguntei mas a ideia era esta). Eles passeavam de mão dada na Av.ª* de Roma comigo ao lado. Estavam como um casal na minha casa da Av.ª do Brasil e eu expulsava liminarmente quem ousasse mandar bocas.
Uma noite, logo no início do meu namoro com o loiro, levamo-lo para um bar homossexual, o Sétimo Céu e foi giro ver o Hugo completamente em pânico. Guardo memória dessas noites em que eu me apresentava de tops de um tamanho exíguo ou de vestido pelo Bairro Alto porque começava a noite com eles e acabava no Plateau.
Uns meses depois, numa mesa cheia no Movies, quando o loiro me perguntou quem é que eu achava o casal-modelo do grupo, dei-lhe uma resposta inesperada para ele (e que motivou uma das maiores discussões) mas em que acreditava piamente : "o casal-modelo, os únicos que têm futuro evidente, são o Mateus e José Pedro.".
Não tiveram, contudo.
Independentemente disso, guardo com ternura duas imagens distintas nossas. Em 1997, mais concretamente no dia 31 de Agosto, eu e o Rui acabámos. Como eu sou de grandes paixões, foi um final tristíssimo, numa fase em que eu achava que devíamos lutar ainda por nos entendermos mas em que o Rui estava demasiado perturbado para essas lides. Chorei que me fartei, certa de que o meu mundo acabava ali. O Mateus e o Zé Pedro vieram buscar-me a casa, convenceram-me a vestir o bikini e fomos para a 19. Sei que tirámos fotos porque tenho uma, muito bonita, com o Mateus e eu, com um olhar de tristeza mortal. Nunca me tendo achado nada bonita, gosto daquela fotografia. Gosto muito. E acho até que fico melhor nesses momentos do que quando me rio.
Hoje olho para aquilo, penso que mais tarde fui eu quem se recusou a casar com o Rui e, não fosse aquela evidência, parecer-me-ia impossível que tivesse acontecido.
Mais tarde, já comigo na Vice-Presidência da Associação e presumo que antes de namorar com o loiro (se não for antes, não faz sentido a recordação que tenho), ouvi de outra boca a frase assassina do "eu amo-te e, por mim, estaríamos juntos mas existe o resto do mundo e esse eu não consigo vencer". Sei que chorei, de novo, muito. Não pela pessoa em si - eu gostava da companhia mas estava muito longe de sequer estar apaixonada - mas pelo "resto do mundo" se atravessar sempre no meu caminho. Caiam-me as lágrimas enquanto eu despachava coisas no meu gabinete da Associação. Mais uma vez, o Mateus veio buscar-me. Vinha com o Florien, um homem lindo de morrer. Fomos à praia e eu disse-lhe: "Fogo, mas porque é que eu não posso ter um loiro como tu, lindo e amoroso?!"
Como se sabe, vim a ter. Só que não era amoroso. Era uma besta, disfarçado de cordeiro.
Independentemente disso, o Mateus esteve sempre lá quando eu precisei. Abraçou-me. Fez repensar quando quis desistir de tudo. Deu-me para fumar coisas que, no meio da merda toda, me faziam rir e ainda hoje acho que, com isso, me salvou a vida. Tirou-me de casa quando eu entrei numa rotina de auto-destruição pura e dura. Levou-me para o mar porque sabe que este limpa tudo. Levou-me a sair à noite para sítios onde ninguém me conhecia e ninguém me queria enga(t/n)ar. Nunca teve segundas intenções.
Mateus: estarás sempre comigo. E uma boa parte do que sou, é também obra tua.
Tenho muita pena que a vida de adulto nos tenha separado tanto. Ambos sabíamos que não podiam durar para sempre aqueles dias em que entravas na minha casa, enrolavas charros, eu bebia Moet e íamos para onde calhasse. As fotografias que tenho permitem-me ter a certeza que aquilo aconteceu. Por ora, isso basta.

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Carlos de Oliveira

" (...) E venha a morte depois/
fria como a luz dos astros:
que nos importa morrer
se não morrermos de rastros?"

Cantiga do ódio

(Hoje isto não dá para mais. Além de nova manifestação do milagre da multiplicação dos papeis na minha sala, o meu corpo voltou a dar sinais de não acompanhar a minha cabeça. Agora são os dedos. Bursite. Whatever. É nestas alturas em que dou por mim a pensar que era melhor ter saído parecida com um tanque de guerra. Recebia menos elogios mas era menos doloroso. Ainda por cima no colégio nunca me deixaram escrever com a esquerda - medo dos comunas?!!. )

segunda-feira, dezembro 25, 2006

Já passou...

Passou.
Ainda tenho embrulhos de prendas rasgados pela sala. A idade vai-se notando também consoante as prendas que recebemos. A minha avó entendeu por bem dar-me um pijama cor-de-laranja (será que ninguém percebe que eu até para dormir gosto de preto ou de branco e ponto final?!!!), a mãe do André um outro "azul cueca", o meu pai deu-me um relógio do Calvin Klein e os meus irmãos deram-me molduras com as fotografias deles (gosto muito dos meus irmãos mas uma fotografia do Clooney não ia mal...). É terrivelmente injusto mas as prendas que mais gostei foram as que dei a mim própria: o trésor, a mala e livros (não, não é o da Carolina, nem o do Santana. Refiro-me a livros a sério, daqueles que não se leva para a casa-de-banho).
Sobrevivi. É o que importa.
Entretanto, dei por mim agarrada ao Milan Kundera. A Imortalidade. O livro do riso e do esquecimento. Ambos melhores que o famoso A insustentável leveza do ser. Páginas de um livro que tanto me diz, com o cheiro do trésor a pairar, remete-me para o passado. Curiosamente, também para o futuro. Para além da oferta de pijamas, o pior que o futuro tem é a certeza de mais um Natal.
A boa notícia é que se aproxima o fim-de-ano. Já não me meto dentro de vestidos pretos. Mas continuo a brindar com Moet.
(não é que este Natal me deu para começar a beber Moet ao jantar?!!!).

domingo, dezembro 24, 2006

As minhas músicas de sempre (ou uma outra qualquer para não escrever sobre o Natal)

(Pronto.Sou curiosa até dizer chega. Nenhuma prenda para mim resiste se eu conseguir descobrir onde é que ela está. Resultado: trinta anos depois, já nem sequer as escondem. Só mas dão no exacto minuto em que as devo abrir.)

Fiquei presa numa fila de trânsito dentro do Forúm Almada (exacto, dentro do parque de estacionamento). Como o rádio não funcionava e eu estava a precisar de alento para a minha condução alucinada, tiro o ipod, acendo um cigarro e divirto-me a ouvir coisas tão diferentes como o "Here cames your man", o "Bem que se quis" da Marisa Monte, passando pela área da Manot Lescau que eu amo de perdição. Ao som do Trainspotting, acelerava a fundo na via rápida da Costa.
Sempre associei músicas a episódios da vida, a amigos, a homens (estará aí a razão porque tanto adoro o Plateau?).
Por um mero acaso, decidi também trocar o Chanel n.º 5 que uso há mais de uma década pelo Trésor.
Mais uma vez, o que uma coisa tem a ver com a outra? Para os comuns mortais, nada. Para mim, tudo.
O Trésor tinha aquele anúncio fabuloso com a Isabelle Rossellini que eu adorava mas que nunca admitia porque contrastava com a imagem de marca de "femme fatale" que eu, com uma nuance algo ridícula, decidi que seria a minha (convenhamos, assentou-me quinze anos como uma luva).
Depois deste verão, decidi mandar essa imagem às malvas. Tenho trinta anos. Posso expressar uma qualquer emoção sem deitar tudo a perder. Posso usar um perfume doce. Posso ouvir a música que eu quiser.
E, quem sabe?, pode ser que me conceda o direito a ser feliz.
Na dicotomia do Vergílio Ferreira ("Queres ser feliz ou queres ser interessante? Tens de escolher.", do Para Sempre), eu optei durante anos por tentar ser interessante.
Agora percebo que os que me acharam interessante nunca me estancaram as lágrimas.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Obrigada Bayer

Foi um dia estranho.
Eu estava nervosa. Não por mim. Por ele. Principalmente por ele. Como eu sou meia desvairada e louca furiosa, eles nunca conseguiram que deixasse de me assemelhar a uma pessoa.
Sentei-me, jurei dizer a verdade. E disse. Disse tudo. Falei no que foi a anedota da investigação. Falei no que foi a minha vida naqueles anos e no que é, ainda hoje, a dele. Contei episódios. Exemplifiquei.
Tinha numa pasta as queixas que fiz. Tudo certinho, logo eu que, nas minhas coisas, sou caótica.
E o que fez o Juiz? Olhou para mim, tentou intimidar-me e perguntou se eu mantinha tudo porque tinha feito acusações graves e eram passíveis de procedimento disciplinar e criminal. Claro que mantive (só um atrasado mental é que acredita que eu chego ali, falo quarenta e cinco minutos de assentada e, depois de um comentário cretino, ia retirar uma vírgula. Isso é para cobardes ou mentirosos. Gosto de pensar que não o sou).
Leio-lhe nos olhos que ele acha que inventámos tudo mas nunca esperei que nem sequer me pedisse para eu demonstrar ou explicar. Nada.
Tenho até de o corrigir. Ele pergunta-me se tenho conhecimento de que o A. foi acusado de ter feito telefonemas para ele mesmo e que havia fotografias num processo disso, razão pela qual teria sido arquivado. Eu olho-o nos olhos e digo: " Não, não tenho conhecimento. Tenho conhecimento que tal lhe foi imputado mas que também esse foi arquivado. O Correio da Manhã é que não noticiou. Não vende". Ele insiste. Eu mantenho a minha: "Não foi acusado. A PT veio dizer que nenhuma chamada foi feita daquela cabine, de modo que a existirem fotografias nunca poderiam ser de algo que nunca aconteceu.". Ele olha para mim e diz-me :" Então não acredita nessas imputações?". Eu respondo : "Oiça, fui eu quem ajudou a fazer as transcrições das chamadas. Não era a voz do A.. Não acredito nem nessas, nem noutras.".
(Um Juiz de um Tribunal Criminal que não sabe o que é ser acusado mete medo. Muito medo...)
Final.
E eu pergunto-me: " Mas este gajo não acha que eu tenho mais que fazer à minha vida? E não lhe parece que, assim de repente e durante qualquer coisa como sete anos, uma pessoa que nunca apareceu, raramente se deixou filmar, nunca prestou declarações, não quer protagonismo? Uma mulher de vinte e dois anos que tem uma casa e um carro para pagar, tem um grupo de amigos generoso e alguns homens atrás, tem necessidade de lixar sucessivamente o seu carro (cujos consertos ninguém nunca lhe pagou), matar os seus animais domésticos, ligar para si mesma (permanecendo o mistério de parte dos telefonemas terem sido atendidos por si à frente de terceiros e longe de cabines telefónicas), ameaçar-se com uma faca?!!! Fui eu que quis que se soubesse com quem dormia (o que era inevitável atendendo a que o senhor agente andava comigo?) Alguém acredita que, se eu quisesse protagonismo, não achava caminho mais fácil?!!! Parece até ofensivo. Eu querendo fazia muito melhor.
Badamerda. Venham os processos crimes. Na pior das hipóteses, deixo já de trabalhar. Mais facilmente como sopa dos pobres - levando sempre a minha mala da Vuilton - do que pago o que quer que seja àquela escumalha. Casa na Rovisco Pais? Desconheço. Terreno na Herdade da Aroeia? Vendi e gastei em Moet. Barco? Qual barco?!
Ironia: se fiz o depoimento que fiz, foi porque tomei migraspirina. Não fosse ela e não estaria em condições de aguentar aquilo. Obrigada Bayer!

terça-feira, dezembro 19, 2006

November rain...

Era - e provavelmente ainda o é - a minha música preferida, a par da banda sonora do "Era uma vez na América".
Quando revi o Axl Rose no verão passado, gordo, irreconhecível, sem voz, chorei imenso. Chorei pela saudade de um tempo em que a vida era muito fácil. Chorei pela recordação das tardes na Mexicana, comigo a martirizar toda a gente com o facto de ser "existencialista" e a ordenar que lessem os livros da Simone de Beauvoir e do Sartre. Chorei porque vi no Axl que o tempo passou e, de repente, aqueles que ouviam o November Rain comigo estão ou mortos ou longe. Demasiado longe... Chorei, por último, porque também chorei imenso no concerto há mais de 14 anos atrás: o Axl, depois da fita que fez, cantou o Don't Cry e eu, já tocada, decidi fazer o oposto.
Curiosamente, foi com uma alusão a esta música que eu falei em público pela primeira vez. Dizia-se horrores da minha geração e fez-se referência aos Gun's e ao "Get in the ring mother fucker". Eu levantei-me furiosa e falei perante mais de mil pessoas. O meu pai ficou siderado: nunca me tinha ouvido e fartaram-se de lhe dar os parabéns. Acabei a dizer que os Gun's que escreveram essa música eram os mesmos que escreveram o November Rain.
Porque raio me fui lembrar disto agora?
Quinta é um dia importante para mim. Vou dizer na cara dos anormais que tentaram transformar a minha vida num inferno que não vergo e não cedo um milímetro. Com travões cortados, com pneus furados, vidros partidos, fechaduras arrombadas, com animais domésticos mortos, com chamadas em que o melhor que me prometiam era saltarem-me para a espinha, com perseguições, com tudo o que se lembraram, eu não me acorbadei. E, volvidos estes anos, faço questão de explicar isso. Na cara deles. Ou na cara de quem lhes vai dizer.
Vão-se f... As árvores morrem de pé. E eu não parto.
Mas, talvez, o M. tenha razão e eu tenha a mania de ser uma "vela". Não ao vento. Mas, seguramente, nas chuvas de Novembro.
E, portanto, é ora de clamar pela outra músiva: "get in the ring mother fucker". No final, veremos quem se aguenta de pé.

sexta-feira, dezembro 15, 2006

O Natal.

Para mim, o Natal foi sempre "O inverno do nosso descontentamento".
Durante anos e anos, pedia para me deixarem dormir no dia 23 e acordarem-me a 26. Lembro-me perfeitamente do meu entusiasmo quando o pinheiro enorme que a minha avó comprava caiu, num grande estrondo. Sempre detestei este espiríto, de me obrigarem a ser simpática, quando eu gosto mais de ser uma besta quadrada.
Percebi mais tarde que talvez o meu ódio mais juvenil se devesse à falta do pinheiro e do presépio que todos os anos a minha avó demorava horas e horas a montar (recuperei o presépio. Pedi-o como prenda de casamento ao meu pai).
Olhando para trás, uma das recordações mais engraçadas que tenho do Natal é o episódio ridículo da avaria do meu carro. Cenário: docas, cheias de homens com muito mau aspecto, onze e meia da noite da véspera de Natal. Eu e a eterna Ash procurávamos um bar para passarmos a noite de Natal. Decido pisar um duplo traço contínuo e entrar por uma zona de área condicionada à Brigada Fiscal. O carro avaria. Começa a deitar fumo. Como, meses atrás, tinha explodido uma parte (com o patrocínio dos meus amigos), a Ash saiu do carro e desatou aos berros, a dizer que ia incendiar-se outra vez. Eu vejo os homens a aproximarem-se de nós e grito também que prefiro morrer queimada a ser violada. Instala-se uma discussão enorme: um carro parado perpendicularmente a um duplo traço contínuo e dentro de uma zona cujo acesso estava vedado, a deitar fumo, e duas mulheres, uma fora e outra dentro, aos gritos. Chega um carro da Polícia e eu penso imediatamente que estou lixada. O Senhor agente aproxima-se e diz-me : "deve ser da água". Eu olho para ele e respondo, muito segura: "eu vi a água e está dentro do nível". Ele insiste. Eu começo a pensar : "Fixe, vou ser multada e este gajo é um atrasado mental". Até que ele me manda sair do carro, aponta-me para uma poça de água e diz-me: "ao passar por ali, molhou o carro. Como está quente, este fumo é a água a evaporar". Olho para ele, encosto-me ao vidro do carro, desato a bater com a cabeça no vidro e digo para mim mesma : "és burra. és completamente burra!". Ele sorriu e desejou-me um bom Natal.
E foi. Acabámos todos num bar na 24 de Julho, aos pulos a dançar.

(A primeira vez que assisti a um Natal convencional depois da minha avó ter morrido foi com a família do André. Já nem me lembrava como é que era! Habituei-me durante longos anos a ter um Natal com amigos, aos pulos em bares e discotecas. Acho que foi a minha forma de lidar com a confusão imensa em que se tornara a vida. Eram bons Natais, contudo. Sinceros e com poucas prendas.)

Recordações do Camões...

O João Pedro era um amor de criança e fazia um furor entre as raparigas, já na fase do armário. Do que me lembro, quando se punham a jogar ao bate-pé - um jogo imbecil no qual nunca quis participar - era o principal alvo das investidas femininas. Eu nunca o vi com esses olhos e o João Pedro deve ter sido o meu primeiro amigo homem (o primeiro de muitos porque eu prefiro os homens, mesmo nas amizades).
A vida afastou-nos, de modo que foi com espanto que recebi o convite dele para a festa dos 30 anos. Fui. Depois de o ver na pista dos Stones a dançar ao som de U2, acompanhado pela mulher que escolheu e pelos amigos, com a felicidade a rebentar-lhe pelos olhos, percebi que tenho imensa pena de nos termos afastado. Comprei-lhe um livro e escrevi-lhe uma dedicatória. Sentida porque de palavras de circunstancia ando eu farta. Ele respondeu: "Querida Rita, antes de mais, muito obrigado pelo livro do Marai. Não posso deixar de registar, contudo, que me deste muito mais do que uma obra literári. Deste-me um dos teus momentos quando escreveste a generosa e porventura imerecida dedicatória e deste, nos últimos vinte anos, provas de um enorme carácter, de uma inteligência invulgar e de uma personalidade marcante. é um orgulho ter-te como amiga... pelo que és e acima de tudo pela percepção que sempre tiveste acerca do valor e desvalor das condutas dos que te rodeavam. Beijo, João Pedro".
Concordo numa coisa: contigo acertei. Obrigada pelas tardes na escola Luís Vaz de Camões. Obrigada por te teres lembrado de mim. Simplesmente, obrigada.

terça-feira, dezembro 12, 2006

Ainda sobre bocas...

Para finalizar este round, lembrei-me de outra que também ficou célebre.
O Senhor que diz que manda agora no PSD era vizinho do Hugo. Quando começamos a namorar, logo correu que ele andava com a filha do comuna, de modo que foi uma correria para ver esta alminha. O vizinho, porém, já me conhecia doutras paragens e sabia perfeitamente quem eu era e que tinha tido 15 numa determinada cadeira. Mesmo assim, a curiosidade em me rever foi mais forte, de modo que dessintonizou a televisão de propósito e chamou o loiro para arranjar, bem sabendo que eu morria de medo do cão (de longe, o elemento mais inteligente da família) e que iria atrás. Lá fomos, comigo a pensar "Isto não fica assim". Ele estava com visitas em casa e pareceu-me a ocasião ideal. Quando ele abriu a porta, lancei nos braços dele e, com um sorriso enorme, disse muito alto :"Estou tão contente. Finalmente conheço alguém da minha altura!".
O resto? Nem preciso dizer. A Maria ia morrendo quando soube.

And now for somethig completlly diferent...

A hora da chegada do correio é um momento de ansiedade para mim. Começo a ouvir a Francisca a carimbar as cartas e imagino logo dez sentenças diferentes a cascar-me e a perguntar que espécie de cogumelos é que eu comi antes de escrever as p.i.'s.
Hoje... Chegou a carta pela qual eu tanto ansiava: a conta do Santa Maria! Rápido e eficaz. Pormenor (ou, segundo a senhora do Guichet, talvez não)... Vem com o código postal completo.
Estou rendida. Para atender doentes, está quieto. Para enviar contas, o ritmo é impressionante.

A modéstia é o nosso forte.

(calma, já só me faltam cerca de 40 páginas. A seguir vou passar para um livro sobre Hitler e depois a um sobre o PREC)

Diz ele: "Tínhamos de resolver uma falha da portaria do Governo anterior sobre a quinta fase desse aumento de capital da EDP, que não previa prémios para os detentores de acções, tendo-me valido da experiência como advogado (mereci do ministro Álvaro Barreto a referência "não sabia que era tão bom jurista")".

Que mal pergunte: mas qual experiência?!!!

segunda-feira, dezembro 11, 2006

E a saga continua...

Diz ele: "Naquele ano, praticamente todos os feriados tinham calhado ao fim-de-semana e um numa quinta-feira, por isso pareceu-me razoável dar uma ponte depois de ter pedido ao gabinete que me fizesse um estudo comparado com os anos anteriores. Sempre contrariei a tendência de dar "pontes" e cheguei a fazer circulares na Figueira da Foz dizendo que quem "metesse" um dia de férias intercalar teria de descontar quatro dias no fim do ano. Costumava trabalhar também nesses dias e visitava, de surpresa, os serviços (fi-lo algumas vezes, por exemplo, no Palácio da Ajuda), fazendo o levantamento de quem não estava.".
Ora bem... Sucede que isto é ilegal. Tirando isso, tudo bem. E pergunta-se: este senhor foi Administrador de uma empresa de vão de escada? E a resposta só pode ser esta: foi. A empresa chama-se Portugal (isto, claro, porque os espanhóis são espertos e em vez de invadirem isto compram o que lhes interessa...).

Este livro é tão bom quanto o Gato Fedorento...

(A propósito, eu prefiro o Bruno Nogueira...)"A verdade paga sempre, e a falta de verdade cobra sempre"SL dixit.Muito bom! Na linha do "estar vivo é o contrário de estar morto".Uma diz que é de centro esquerda. O outro escreve merdas destas. Credo, estas criaturas estão ou estiveram no poder. Que susto...(Nem falo na marquise. Ninguém normal tem uma marquise nos dias que correm. Pior, ninguém se deixa filmar numa. Excepto quem não se importou de ir mascarada de "galão" ao casamento do D. Duarte. Pronto, já sei que vão dizer que ocupo a minha memória com coisas inacreditáveis. É verdade. Mas, pelo menos, vou aos casamentos vestida decentemente.)(Lembrei-me agora de uma das minhas frases mais crueis para a Maria dos Anjos. Era assim: "Sabes porque é que o Fernando Nogueira não ganhou as eleições? Porque a Maria dos Anjos ocupava o ecrã inteiro. Pronto, já sei é horrível. Mas ainda hoje acho piada. Não percebo porque é que a dita cuja nem se riu quando eu decidi dizer isto nas trombas dela.E, como isto é como as cerejas... Lembrei-me de outra. Num almoço em que a família de Caxias me obrigou a ir estava o Senhor Professor Cavaco. Fruto de um imenso arraial na distribuição de lugares, acabei por ficar muito perto dele. Olhei para ele com um ar cheio de medo e disse: "Não vai comer bolo-rei, não?!". Bendita juventude, que me permitia dizer estas coisas.).

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Rir num julgamento que poderia ter sido uma seca...

(Estou tão fascinada com ter aprendido a fazer castanhas que todos os dias faço umas quantas. Vim aqui, num intervalo...)

Havia a promessa que julgo recíproca de não se tornarem três dias de julgamento numa tortura para ambos. Eu tinha prometido a mim própria que ia preparar tudo muito direitinho até para não fazer figuras tristes. A ida ao Hospital e a minha ideia fixa de ir para Paris deitaram os meus planos por água abaixo mas acabei por ganhar tempo suficiente para me relembrar das coisas.
Ao meu lado, uma mulher que perdeu quase tudo, chorava a cada instante e quase me fez chorar a mim.
Ainda não acabou e, apesar de julgar que ambos concordamos vagamente no que pode ser a decisão, correu bem. Acho que nunca me ri tanto num julgamento. E, mesmo que perca tudo (o que eu não queria...), já valeu a pena porque houve momentos hilariantes, o que me parecia impossível poder acontecer numa situação daquelas. Foi, no mínimo, original.
E duvido que me consiga alguma vez esquecer da circunstancia de uma pessoa, num mundo chato como este é, me fazer rir ao ponto de eu ter de esconder a cara do juiz, durante interrogatórios a testemunhas.
Obrigada.

(E vou comer a minha obra de arte. Castanhas! Qualquer dia sou mulher para aprender a estrelar um ovo...)

Como disse?!

"Sou de centro esquerda"
Maria Cavaco Silva dixit.

É para rir ou é mais uma percepção?!

terça-feira, dezembro 05, 2006

Percepções e realidade

Devo ter sido das poucas que lamentei profundamente a queda do Governo de Santana. Ninguém fez tanto pelo humor em Portugal como aquela equipa. Por isso mesmo, quando Sampaio anunciou a saída de cena, antevi logo que, sendo Sócrates parecido em termos de ideologia - até porque se iniciou na mesma JSD -, teria muito menos piada. Durante aqueles meses, eu ri que nem uma perdida com o que se passava. Portugal parecia convertido num filme grotesco, o que, não sendo saudável, era engraçado.
Durante a campanha, Santana Lopes teve ainda oportunidade de um inesquecível canto do cisne e que foi o célebre vídeo do "Menino Guerreiro", no limiar do que de mais ridículo se fez. Eu gravei o vídeo, claro. Para quem ainda não tinha percebido que o Santana Lopes gostava de "colo", ele confessa-o expressamente, trazendo para a campanha assuntos de alcofa (e depois queixa-se...). Quando se julgava que nada podia ser pior do que aquela fotografia no cruzeiro da Caras, eis que um candidato a Primeiro-Ministro elege como mensagem de propaganda uma canção lamechas e se designa a ele mesmo como "Menino Guerreiro" - o que até pela próximidade do processo da Casa Pia não foi feliz -, surgindo em primeiro plano com imagens de Sá Carneiro atrás, no que sempre pareceria um aproveitamento inaceitável.
Depois do período de nojo, Santana Lopes escreveu um livro e, à semelhança do do Carrilho, eu comprei-o e estou a lê-lo atentamente.
A única dúvida que subjaz ao ler o livro é a de saber se o que Santana Lopes conta se passou em Portugal. É que, a cada passo, eu relembro a cena da Ministra Carmo Seabra a dizer que se recusava a ir ao Parlamento porque considerava que já tinha dado todas as explicações na Televisão. Daí a pergunta: o livro fala de percepções ou de realidade?

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Praga por um canudo e o regresso a Lisboa

Paris, Paris, Paris.
Para mim, Paris tem um encanto enorme. Sempre. Em cada esquina. Mesmo quando chove a potes e está um frio de rachar. Não é pela porcaria da Torre e, seguramente, muito menos pelo Louvre. É pelo ar que se respira.
Foi hilariante andar a ver vibradores enormes (acho eu que mais prórios para empalamento do que para... enfim...), foi poético passear pelos Champs, foi simpático ter comprado a minha mala (eu que chorei de raiva por causa do cartão multinanco não passar e por pensar que não a iria trazer).
O melhor, todavia, foi ter ido com aquelas pessoas. O João. A Patrícia. A Mónica. O Sérgio.
Paris nunca será o mesmo se for sem eles. Por eles são do melhor que se pode ter.

(Praga foi-se. Data errada. Julgamento sem hipótese de substabelecer - aquele julgamento é tão caótico que eu própria já nem percebo nada daquilo. Graças a deus, o Pedro também já não, de modo que é empate.)

(O regresso a Lisboa foi durinho. Julgamento o dia todo e eu a ressentir-me do fim-de-semana e de alguma tensão. Acho que o médico me tinha aconselhado a não apanhar chuva... É difícil estar numa cadeira com um ar muito concentrado quando corpo me pede que esteja de cama. Mas ainda dei por mim a sorrir. Lá se foi o meu ar supostamente impenetrável.)

quarta-feira, novembro 29, 2006

A importância de um código postal.

São nove e tal da noite, já não como nada há oito longas horas e o gajo não se cala nem por nada.
A dor instala-se de forma inicialmente insidiosa e acaba por tomar conta de mim.
Consigo finalmente convencê-lo a levantar-se e proclamo em voz baixa: "se calhar, talvez não seja má ideia eu ir a um hospital". Penso logo na CUF Descobertas mas acabo por ceder aos conselhos de uma amiga que abomina os hospitais particulares (eu por mim adoro processá-los...). Seja o Santa Maria.
Entro pelo meu pé, com um ar aparentemente sereno. Explico à senhora do guichet que estou com dores fortes no peito e no braço esquerdo. Ela pede-me a morada. Olho para ela com um ar baralhado e começo a tentar lembrar-me primeiro do n.º de porta. Digo 24. Não é (a casa de Campo de Ourique é que era o 124). Então 26. Lá acerto (quem é que me manda ter como morada oficial uma casa onde nunca morei?! Ah, pois, desde que os amigos da indústria farmacêutica me decidiram contemplar com a sua atenção e carinho que eu tenho sempre dado moradas onde não resido...). E o código postal, pergunta-me a D.ª Conceição, inabalável perante a hipótese de eu estar a ter algum problema de coração. É o mil, digo eu, bem sabendo que esse era o da Avenida de Roma. Ela diz que não e insiste que é o mil e novecentos porque acha que Alameda é a da Linha de Torres e não a do Técnico. Eu lá vou dizendo que não pode ser e que estou com um bocadinho de pressa. Ela insiste e, perante o ar impávido dela, digo que é o mil e cem. Ela duvida. Vai buscar um roteiro da cidade perante o meu ar de profundo espanto. Mais uns minutos porque ela diz que a Av.ª Rovisco Pais não existe. Já estou por tudo. Ela descobre-a e confirma que o código postal é o mil e cem.
Depois disto, e como aquele hospital ("obviamente", segundo ela) não é o da minha área de residência, o melhor é eu ir falar com o enfermeiro a perguntar se me atendem. Arregalo os olhos mas, com medo da minha fama de extrema intolerância, lá vou. A Enfermeira manda-me de volta para a sala de espera para a triagem não sei antes o segurança me vir perguntar se já me tinham chamado. Percebo então que é suposto eu, com suspeitas de estar com um problema grave, ir para uma sala, esperar sossegada horas que me chamem para a triagem para depois decidirem se me atendem ou não.
Decido vir embora, não sem antes a Senhora Conceição me dizer que ninguém pode anular a minha ficha e que, portanto, vou receber uma carta a mandar-me pagar os oito euros. Eu respondi furiosa que isso é que eu gostava mesmo que eles fizessem e dirijo-me à CUF.
Mesmo nestes momentos, prefiro morrer num hotel de cinco estrelas que ser salva numa chafarica.

(Afinal, não era nada de grave. Tenho uma inflamação nas articulações todas, o meu electrocardiograma não deu nada de mau e nada de bom e tenho o sistema imunitário fragilizado. Qual é a novidade?! Tudo normal, portanto. O médico olha para mim, verdadeiramente surpreendido com o meu ar de felicidade. Aproveito e pergunto logo se posso fumar e ir para Paris. Ele diz que sim. Eu sorrio e respondi: "Sabe, mesmo que dissesse o oposto, eu iria na mesma". Ele responde: "Eu já percebi isso. Ninguém a consegue travar, pois não?". Olho para ele e digo: " Nem o cancro, nem a asma, nem nada. A morte fará isso. E é justamente por isso que eu vivo cheia de pressa". Fiquei tão contente por ele ter dito que o meu coração estava igual a si próprio que, mal saí, acendi logo um cigarro. Quando cheguei a casa fiz a mala. Paris, aí vamos nós.)

domingo, novembro 26, 2006

O que distingue o ps do psd?

O Nuno nunca mais foi o mesmo, depois dos famosos anos de 1998, 1999 e 2000. Foram muitas noitadas para todos nós. Começava na Floresta, com planos para conquistar o mundo escritos nas toalhas de papel. A seguir, íamos ao Cha-cha-cha, onde bebíamos vinho. Depois... Depois era para onde houvesse música. Excepto a dos The Gift, que ele não gosta por motivos óbvios.
Ainda hoje imagino o espanto daquela gente de Bragança que viu sair um miúdo e se depara agora com um homem excêntrico. Enfim... Parece que agora deu em comentador numa estação de rádio local. Entre muitas pérolas, uma manhã destas deu por si a dizer :"No dia em que o PSD tiver estratégia passa a chamar-se PS".
Ele é que disse.
Mas eu concordo.
(Pronto, Rodrigo, já sei que este post vai merecer uns comentários teus)

(entretanto, parece-me chegada a hora do reencontro. Faltarão o Rui e o Miguel mas ainda não passou tempo suficiente para que o Nuno e o Henrique esqueçam de vez as intrigas. Eu, por mim, passo bem sem o Miguel. E também não faço questão que se leve o Rui, especialmente se ainda tiver aquela namorada - provavelmente já deve ser mulher... - que, por causa de uns ciúmes cretinos, me queria bater. Acha paciência. Tanto mais que eles só começaram depois de eu ter decidido acabar com aquele relacionamento surrealista. Devia era agradecer-me, a ingrata. Até porque o que era suposto ter sido "simple" nunca o foi.)

Irei a Bragança, pois claro! A última vez que fui lá o Nuno estava horrorizado com a perspectiva de eu cumprir a minha promessa e ir para lá de saias por debaixo do rabo. Podes ficar tranquilo. Já só uso mini-saias de férias. Irei até muito compostinha, no meu papel de senhora respeitável, sem gritar palavrões nas curvas do marão e sem esvaziar copos num ápice. Mas todos sabemos que, na essência, estamos todos iguais.

quinta-feira, novembro 23, 2006

Porque sim...

Eu olho para as fotos e penso: "F..., já te vi melhor". Depois lembro-me que minutos antes tinha estado aos berros, a vociferar toda a sorte de combinações possíveis de palavrões que conheço (e são imensos...) e até consigo aceitar que podiam estar pior.
Ele, porque é um querido, manda-me uma mensagem que diz " Recebi as fotos do casório. Estás linda ( e com um sorriso fantástico). Espero que tenhas muitas razões no futuro para continuares a sorrir assim. Bem mereces". Eu devolvo-lhe uma mensagem provocatória e pergunto: muito sexo? Ele responde: "(...) Sempre muito sexo (pena agora ser sempre com a mesma)".
Eu sorrio. Não sou eu que mereço. Ele é que é excepcional...

quarta-feira, novembro 22, 2006

O polvo...

Todos os miúdos têm heróis, acho eu.
Para mim, era a Marilyn porque era linda e o Conrado Cattani porque era interessante e muito corajoso. Agora que comprei uns dvd's da minha série preferida, reparo em pormenores curiosos. Percebo também que o meu lado que gosta do Polvo é o mesmo que me faz manter-me a exercer. É uma ideia poética de justiça (não, não é divina; dessa só me lembro para as maldades...). O episódio da morte dele é dos momentos de televisão que melhor recordo (não tenho ainda... os gajos da FNAC preferem investir em séries ridículas). Ele não fugiu. Olhou de frente.
Vendo à distância, foi também nele que fui buscar forças para ignorar e gozar os gajos da bayer quando me ligavam, me estragavam os carros e matavam os meus amigos domésticos durante anos a fio. Bom...
A vida tem coisas estranhas. Mas, às vezes, a ficção também.

sexta-feira, novembro 10, 2006

The end...

"Good bye cruel World
I'm leaving you today
Good bye.
Good bye all you people
There's nothing you can say
That make me change my minds
Good bye"

É tudo um imenso vazio. Um vazio enorme, tão grande e profundo que não me consigo encontrar a mim mesma. Estou perdida - não o terei estado sempre?- neste incomensurável silêncio ruidoso.
Esforço-me por boiar neste lamaçal mas dou por mim atolada. Incapaz de continuar a lutar.
Odeio isto tudo. Odeio o que faço. Odeio as horas de vida que tudo isto me tira. Odeio esta vida. Não aguento mais.

sábado, novembro 04, 2006

Os Homens da minha vida...

"O que importa não são os homens da nossa vida mas a vida que há nos nossos homens"
Mae West

Ontem, enquanto dava a volta do ipod, percebi que tenho sido de uma profunda injustiça para ele. Quando me falam de homens bonitos eu penso logo: "Hugo!". Errado. Nunca foi. Muitos anos antes, tinha eu catorze, conheci o homem mais bonito de sempre: o Russo. Duarte, para a minha avó.
Era impossível não se reparar numa criatura daquele tamanho, loira e com uns ombros capazes de nos fazer sentir no céu, de modo que, mesmo antes da festa onde formalmente nos conhecemos, eu já tinha reparado nele. O nosso primeiro diálogo foi hilariante, daqueles de cinema. Eu devia estar com aquele ar de perdida que me asssola de quando em quando.
"- Queres ir amanhã a uma festa em minha casa?"
- Convidas sempre pessoas que não conheces?
- Não. A maior parte aparece sem eu a convidar".
Eu fui, claro. E abriu-se ali a porta para tudo o que uma adolescente não deve conhecer. Sexo, drogas, dinheiro a rodos. Eu nunca fui uma "deles" mas era a namorada do chefe do grupo. No início, aceitaram-me mal: eu só fumava cigarros, pouco ou nada bebia e era uma intelectual. Andava por ali mas ia à escola e era boa aluna. Em minha casa, ninguém percebia a vida dupla que eu levava. No final, eu era o único contacto que detinham com a realidade. Pelo meu lado, eles eram a porta de entrada de um mundo estanho, diferente e vem dessa altura a vertigem do abismo. Foi ao lado do Russo que me manifestou pela primeira vez uma das minhas características mais bizarras: quando todos pensam que eu vou saltar, dou um passo atrás. E dei.
À minha maneira, eu tinha uma paixão louca por ele. Ele era lindo, era inteligente, era rebelde. Fazíamos corridas em contra-mão na Marginal. Saíamos à noite. Gastávamos dinheiro como se ele nunca acabasse. Vivíamos como se a morte nos esperasse ao virar da esquina. Simultaneamente, ele abraçava-me, eu adorava-o e éramos um casal muito pouco convencional mas feliz. Feliz no meio de alcóol, de cocaína e de um pai que lhe dava naquela altura duzentos contos por mês e várias casas para ele não o chatear.
Uma noite, depois de ele ter ido para Paris e de, fruto disso, termos acabado o namoro (sim, na minha cabeça, o problema era a distância, com as drogas podia bem, achava eu...), a morte levou-o. Ele tinha 18 anos. Eu 16.
O meu anjo foi-se. E eu fiquei condenada a dar-me com homens.

quinta-feira, novembro 02, 2006

Brilhantismo sem brilho...

"Deixe-me dar-lhe os parabéns. Foi brilhante." - diz ela.
Eu olho para ela com um ar escandalizado e sinto as lágrimas a rebentarem-me pelos olhos.
Tento conter-me. Estou num Tribunal, as pessoas conhecem-me e não me parece nada apropriado andar a choramingar pelos cantos.
Noutras circunstancias, aquele elogio tinha-me dado algum folego para resistir a esta maré de julgamentos. Sucede que ela não era minha constituinte. Era a contra-parte. E também não era a entidade patronal. Era a trabalhadora.
O Rui Costa fala num anúncio do pior golo da vida dele. Eu sinto-me assim. Acho que limpei aquilo nas calmas mas o que eu queria era ter perdido. Ainda por cima porque não preparei nada, fiz quase tudo de improviso, o que incluiu as alegações e tudo (estou a ficar perita em improvisos, é quase inacreditável mas quanto mais me preparo pior é...).
Raios, podia ter tido um daqueles momentos maus e ninguém teria percebido...
Se Deus existisse ter-me-ia travado o raciocínio. Ah, é verdade, se deus existisse aquela trabalhadora nunca teria necessidade de estar ali.

quarta-feira, novembro 01, 2006

Cleo para os amigos...

Tive resmas de alcunhas: esparguete por ser magra, ice por aparentar uma atitude sempre gélida, miss legs quando fazia ginástica todos os dias, senhora condessa por causa do meu ar, miss Roma porque sim, barbie xaxão por ser vaidosa e um bocadinho beta. Não obstante, aquela que me ficou para sempre foi a de "Cleópatra". Acho que já o escrevi aqui: eu odiava o meu nariz a tal ponto que sempre disse que o primeiro dinheiro que ganhasse legitimamente (sim, naquela altura eu jogava ao sete e meio em pleno Filipa de Lencastre e não me lembro de ter perdido) iria direitinho para uma operação plástica.
Sucede que, quando ganhei o meu primeiro salário, tinha um loiro, feito jarra e plantado em minha casa, e tinha de prover ao sustento de ambos. Os anos correram, eu acabei a gostar do meu nariz - justamente o que me valeu a minha alcunha preferida- e acabei por canalizar o meu dinheiro para outros lados.
Chegados a isto, a pergunta é porque raio me fui lembrar disto agora. A explicação é menos óbvia. Olhei-me no espelho o fim-de-semana passado e fartei-me de estar loira. Quinze minutos depois entrei na Lúcia Piloto e pedi que para escurecer o cabelo o máximo que fosse possível.
Está preto. E, pese embora ninguém goste, eu sinto que estou com um ar mais simples.
Tenho, porém, duas certezas: a 1ª é que vou voltar a ser loira; a 2ª é que era agora ou nunca. O cabelo escuro envelhece e eu começo a ceder à voragem do tempo. Por isso, é um até já à imagem de marca de sempre. Ironicamente, pouco tempo depois de o Rodrigo me ter lembrado que eu já tinha sido muito diferente do que me apresentava...
(Pronto... Talvez falte aqui um pormenor. Eu desisti da operação ao nariz. Mas, depois de ter emagrecido, não ponho de parte repor as medidas numa determinada zona. 34 B, é tudo o que peço. )

quinta-feira, outubro 26, 2006

Porque acho que vou copiar esta ideia...

O João Pedro é músico e, desde sempre, eu simpatizo muito com ele. Enfim... Eu gosto de "artistas", como tenho demonstrado muitas vezes.
Depois de termos perdido uma batalha, chamei-o cá. Ele veio e trouxe aquelas gargalhadas que o caracterizam e que eu deliro. Falou-se do ensino. Ambos estivemos sem receber. Eu contei-lhe que, no auge da loucura, me virei para um Administrador que me odiava de morte e, entre outras, disse-lhe que eu estava mais à frente, já não se tratava de dar aulas borla porque eu já pagava para as dar, numa alusão a ter pago as propinas de dois alunos que eles não queriam deixar entrar na sala de aula para fazer exame.
Muita gente, naquela altura e naquele contexto, achou a minha postura de gozar perdidamente com a cara deles delirante. Eu própria achava muita graça a muita coisa que fui fazendo, entre as quais ter dito à mesma alma que não via grandes consequências em ser despedida porque, assim como assim, eles não pagavam mesmo...
O João Pedro fez melhor: escreveu que, já que pagava para dar aulas, queria constar da lista de patrocinadores. Pois é... Isto sim, é classe.
E nem posso copiar. Não é que agora eles pagam de livre iniciativa e sem berros. Bolas... Não me deixam brincar...

terça-feira, outubro 24, 2006

Depois dos trinta...

Eu viro-me para ele e indago:
" Ao menos a gaja é inteligente?".
Ele responde: "Óh R., tem dó. Quem gosta de interiores são os decoradores".

sexta-feira, outubro 13, 2006

É Já amanhã.

O Rodrigo, o meu amigo Rodrigo, vai-se casar. Pela igreja, com copo de água convencional e tudo.
O Rodrigo é uma daquelas almas de que eu gosto muitíssimo. O que se ri de tudo e dele próprio. O que me faz rir sem parar. Acendemos cigarros, bebemos cafés a um ritmo estonteante, destilamos histórias antigas e recentes. Como sucede com grande parte dos meus amigos, o Rodrigo é do PSD. Ferrenho. De todos eles, foi o que subiu mais alto. Mas é a simplicidade em pessoa. Ele goza com o mundo que escolheu e faz a sátira desses medíocres num ápice.
A noite de ontem - e o esforço que eu fiz para ir ao Bar do Guincho! - foi memorável e devolveu-me alguma daquela alegria de viver que, por vezes - se calhar, por demasiadas vezes - me escapa. Fez-se um barrulho enorme. Risos e gargalhadas a alto e bom som. Asneirada da grossa e toda a sorte de palavrões. Outra das virtualidades dele é que eu me sinto liberto para dizer o que penso. E falamos de igual para igual. Com palavrões de meia-noite. E há outra forma de falar, com sinceridade, de política?!
Obrigada, Rodrigo. Não por me teres convidado para o teu casamento mas por me deixares entrar na tua vida.
E, como é óbvio, que o teu sorriso se mantenha. Para sempre.

Esta ainda sou eu?!

(Não tenho tempo para falar do Rodrigo. Terá de aguardar por dias com menos papeis à frente...)

Ontem, no bar do Guincho, o Rodrigo exclama a alto e bom som:
"Nunca me deitei com gajas feias mas já acordei ao lado de muitas...". Faz os elogios habituais, diz a quem nunca me viu que eu era o objecto de desejo de grande parte da comunidade masculina (um imenso exagero), goza com os meus ex serem do PSD e proclama que eu era a estrela das festas à noite. A conversa segue para as tralhas que as mulheres usam e, claro!, acabou em mim. Ele faz a pergunta óbvia - ainda te reconheces por detrás disso tudo? Eu sorri e disse : "Mas eu sou isto tudo".

E sou. A pergunta é o que aconteceu à outra, a de olhos e cabelos castanhos, mais dez quilos em cima e uma timidez terrível? Não sei. Não é vista há muito tempo.

terça-feira, outubro 10, 2006

Ainda a história... ou as histórias

" H - De que adianta ser intelectual? Aposto que o James Joyce não sabia consertar uma tomada.
B- Não digas barbaridades."

" H- Mas porque é que fazes tanta questão de, uma vez morta, ires para o jazigo da tua família, nessa ilha perdida no meio de nada?
B- Porque busco na minha morte a privacidade que nunca tive em vida. Percebes isso ou devo fazer um desenho?".

terça-feira, outubro 03, 2006

E já agora...

Uma tem, entre outros, o encanto de, sendo uma amiga, conseguir ter sempre novidades.
Uma vida pautada por uma originalidade constante que a torna uma excelente protagonista de qualquer história que se queira contar. Eu passo pela sala dela, acendo um cigarro, praguejo contra o mundo, as notificações e "a maluca das Caldas". Ela devolve-me histórias inacreditáveis.
A outra... A outra é a tal loira. E eu começo a gostar dela.
A vida é mesmo um jogo. Espero que seja de xadrez que as "damas" entediam-me. Nem todas gostamos de gajas... E eu sou daquelas que nem preciso de experimentar para saber isso.

quarta-feira, setembro 20, 2006

Seguindo uma sugestão...

"A sedução, tal como a arte, vive só para si: a arte para a arte, a proeza para a proeza, a coragem para a coragem, o amor para o amor, a embriaguez para a embriaguez, o prazer para o prazer. Quem disse que a vida é um sonho? A vida é um jogo."
Autor: Gabriele D'Annunzio Fonte: "O Livro Secreto"

terça-feira, setembro 19, 2006

Há gentinha muito medíocre

Cuidado com os lobos vestidos de carneiro, foram-me sempre dizendo.
Nunca tive.
Em termos pessoais, detesto ares de carneiro e, talvez por isso, nunca me envolveria com ninguém assim. Já que temos de nos cruzar com autênticos animais, então que sejam de outra índole, mais interessante. Lã, só nas camisolas, please.
Já no campo social e profissional e como é óbvio, não posso escolher propriamente com quem lido. Posso, contudo, escolher a quem dirijo mais do que meras palavras.
Lembro-me dele por o ter achado ridículo. Era um Sábado de manhã e eu estava entre o a dormir em pé e o furioso por ter de estar a vigiar exames. Ele, com um ar pretensamente charmoso, meteu-se comigo no bar da universidade, tentou fazer o género de "carneiro" e deu-me um cartão que dava a conhecer que era "capitão de artilharia". Eu fiquei a pensar "mas que merda faz um capitão de artilharia" neste país, guardei o cartão e voltei para a minha sala. Deste encontro distam uns anitos e tudo o que soube depois dele foi que devia guardar distância. Como se preciso fosse!
Porque este mundo é um T0, tomei conhecimento que esta alminha casara. Azar dos azares, não encontrou ninguém ao nível dele. Foi acima. E muito!
Hoje, essa criatura, ansiosa pelo protagonismo que um andar em Chelas forçosamente não confere a ninguém, lixou-me a minha remuneração na Universidade. Novo azar. Para ele, oitenta contos é uma fortuna. Para mim, é uma gota num oceano. É que a vida não é justa. Mas, diz-se, Deus também não dorme em absoluto. Ele esforçou-se muito, muito. Conseguiu que eu compre menos livros ou uns perfumes a menos. Agora é a minha vez. E vamos ver se ele se aguenta tão bem...
O que é mais ridículo nesta história é que um gajo casado de fresco, com uma "maison" em Chelas e um mestrado duvidoso, não arranje nada de mais interessante do que me lixar a mim, que nada lhe fiz. A verdade é que eu não quero que lhe falte nada. Não tinha motivo nenhum para esta atitude cretina. Mas agora vai ter. E não vai ter um. Vai ter vários. Muitos. Tantos quanto a presunção ridícula de quem ostentaq um ar perfeitamente bimbo e sente necessidade de apregoar vinte vezes que faz exercício físico.
Pois é..., caro Pedro, ninguém ainda te ensinou que não há banho de dinheiro (e o teu, convenhamos, nem é muito...) que tire o ar bimbo ou que torne a tua cara em algo que se possa afastar dessa imagem de atrasado mental que tens.
Espero que tenhas aproveitado o momento. Chegou a minha vez. E eu sou famosa por gostar de coisas duradoiras.

domingo, setembro 17, 2006

Amizades Improváveis - Take 3

(Pois é... És mesmo tu. Não fui sair, estafada depois de uma semana no Funchal e duvidosa que aguentasse os dez centímetros de saltos e deu-me para isto. Bom... Sempre é mais construtivo que jogar sims e deixar a mulher da segurança social levar-me os filhos. O nosso Plateau fica para daqui a duas semanas. Até porque é só nosso, regado a copos de champanhe e granadine.)

No início, ela era-me indiferente (bem vistas as coisas, no início, quase todos me são indiferentes). Depois, comecei a embirrar com ela. Um dia, com um ar aterorrizado, ela disse-me que estava grávida. Eu olhei para ela com respeito. E, pela primeira vez, acho que lhe vi a alma.
Desde esse dia até hoje, muito mudou. Ela tornou-se uma das minhas melhores amigas. Aquela a quem ligo quando preciso de ajuda. Aquela que me pode sempre ligar a pedir ajuda. Eu celebro as vitórias dela. Eu deliro com a felicidade dela. Nem concebo a minha vida profissional sem ela, nem quero pensar numa vida pessoal onde ela não esteja. Ela é ela. É única. É Bela.

Amizades Improváveis - Take II



1998 - Eu avançava no Colombo, com o ar de quem ia morrer no minuto a seguir e amparada nele, perante o ar de espanto de quem via a cena e reconhecia um dos intervenientes. Tinha-o convencido que queria deixar para trás tudo o que me lembrasse a minha jarra e, consequentemente, deitei quilos de roupa fora e fomos comprar mais. Perante a inexistência de qualquer alteração no meu estado de espírito, ele disse-me: "Já não consigo mais ver esse seu olhar. Que tristeza!". De repente, deu-me uma energia imensa, tirei-lhe o cartão da mão, entrei numa oculista e respondi: "Isso é que se resolve já". Quando saí, era esta. Tirando breves momentos, nunca mais deixei de o ser.

E, de todas, esta é a amizade mais improvável. A que passa por aqui mas que permaneceria sempre por tudo. Pelo que fez por mim. Mais que do que qualquer outra pessoa. Voaram os anos, é certo. Mas eu gosto de ter memória. Obrigada. Sem si, naquelas noites de 24 horas, nunca seria quem sou.

Amizades improváveis

Salvo erro, tinha 15 anos. Andava no Rainha Dona Leonor, já após a expulsão do Filipa. Perdi-me de amores pelo Ruta, o meu colega da mesa atrás e companheiro de muitos cafés, a quem eu passava os meus testes para ele copiar. Ele era inteligente e, acima de tudo, tinha um sentido de humor fabuloso. O sentimento parecia recíproco, principalmente depois de uma vez que ele me pegou ao colo e levou até à secretária. Fomos logo para a rua na aula de História.
Houve uma festa, aguardada com muita expectativa. No Zona +. Dentro de mim crescia a esperança que se desse ali o início de algo diferente do que tínhamos e lembro-me que passei a tarde a escolher roupa e brincos, perante o olhar curioso da minha avó que antevia qualquer coisa.
Nessa noite, fui com a Filipa, minha eterna rival nas aulas e na atenção ao Ruta. O Rainha em peso mostrava-se por lá. Eu estava na pista e começou a dar o "Here comes your man", dos pixies. Ele chegou em plena música, sorriu-me e agarrou-me. A Filipa começou a chorar em plena pista. E eu não fui capaz. Afastei-o, levei a Filipa por um braço para a casa-de-banho e supliquei-lhe para não chorar à frente daquela gente toda. O Ruta nunca me perdoou e, quando nos reencontrámos há poucos anos, ficou-lhe sempre o ressentimento de eu ter tornado uma inocente paixão de adolescente num "quase", em algo que nunca se saberia o que poderia ter sido. Quanto à Filipa, essa ficou para sempre.

sexta-feira, setembro 08, 2006

Tirado da vida real para a história...

"- Foda-se, Rita, não me venhas com merdas. Não somos todos iguais?
- Não. Somos todos diferentes."

" - Podes fazer o que bem te apetecer. Podes chumbarem todas as cadeiras que os teus paizinhos hão-de continuar a mandar-te o caralho do cheque ao fim do mês.
- Não voltes a dizer "caralho".
- Caralho? Qual é o problema? Nunca ouviste esta palavra antes? Não é com ele que tu fodes a minha amiga todas as noites? Ah, pois é... esqueci-me. Tu para nos foderes a todos nunca precisaste de ter um caralho. A ti basta-te ser um caralho de um delator".

quarta-feira, setembro 06, 2006

O verão da minha vida.

Fruto do meu incomensurável rol de inseguranças, fui sempre uma alminha preocupada com o que os outros pensavam de mim. A tal conversa de nunca ser bonita o suficiente (era o nariz, depois a péssima pele, o cabelo fraco, a celulite, as estrias e sei lá que mais...) ou de nunca ser inteligente o que bastasse (era a sombra do meu pai, do meu avô e do meu bisavô que foi ministro e sei lá que mais). Recordo-me até do meu profundo espanto quando, acho que corria o ano de 1995, um Homem olhou para mim e disse-me que me achava muito mais interessante que os meus dois progenitores juntos.
Com o tempo, fui ganhando alguma confiança mas, em bom rigor, a falta de tempo resolveu-me parte do problema: perante algo que vai acontecer dali a cinco minutos sem que nos tenhamos preparado convenientemente não resta margem para medos, lamúrias ou afins.
Todavia, a revolução veio com sabor a mar. Na noite em que pisei o Porto-Santo, fomos sair. Eu, adepta das grandes produções para as saídas, de tops e maquilhagem, saí de cara lavada e de t-shirt. E dancei. Dancei as músicas mais ridículas, com um sorriso nos lábios e completamente indiferente aos outros. Depois de uma ponchas de maracujá, dei por mim a pensar que tinha chegado ao verão da minha vida. Tenho quase trinta anos e, finalmente, arranjei algum calor dentro de mim que me faz ser imune ao que os outros pensam. A Primavera já lá foi e, com ela, as tristezas.
Chegará depois o Outono. E, enquanto vivo o verão da minha vida, quero ter um sorriso que saiba a mar, quero proferir palavras quentes como as tardes de Agosto, quero dançar antes que venha o frio. Quero sentir-me livre como se andasse descalça, quero ter a segurança de um bronzeado, quero sentir-me viva como quando brinco na praia.
Paralelamente, nunca houve um verão em que o ambiente na casa do Porto-Santo fosse tão bom. Em que o riso tivesse ecoado como este ano. Em que eu sentisse um espírito de união tão consolidado.
No fundo, onde a cumplicidade andasse de mãos dadas com o afecto.
Também por isso este foi o verão da minha vida. Que venham mais. Que se abram mais garrafas de Asti - à falta de Moet, quem foi a anormal que julgou ser possível comprar Moet naquela ilha?!!! - na praia. Que se dance descalças e de sorriso franco e sincero.
Já era tempo, caramba, de eu ter uns farrapos desta alegria contagiante. Já era tempo de eu deixar os saltos, a maquilhagem e a fachada de besta quadrada que a RGP carrega atrás de si.
Gosto de ser apenas a Rita. E, principalmente, gostei de ser esta Rita, livre como nunca, leve e alegre.
Gostei que tivessem estado lá. E que a amizade que começou tão lá atrás (vinte anos?! quem diria?) se tenha estendido a nós os quatro. Melhor, aos cinco. (Não chego ao ponto de dizer aos seis... Ainda me estou a acostumar à ideia de ele ter uma loira com a minha idade. Chegarei lá? Claro. Mas a suprema ironia era perguntar-lhe se ele mantém que os 15 anos que me separavam do Virgílio eram assim tão importantes. Pronto, já sei. Eu tinha 15 ou 16 e ele muito mais. Mas lá que foi o mais inofensivo deles todos, foi! E, sim, também sei que o recorde destas coisas continua a ser meu. Trinta anos, não é? Justamente. A idade que vou ter. O verão da minha vida. Está tudo ligado. Não há coincidências, diz a outra anormal.)

terça-feira, setembro 05, 2006

Um toque clássico

Sempre me queixei que a minha vida seguia um curso tão original que quase parecia uma mescla de novela de mau calibre mexicana com um dramalhão propenso a uma ópera como aquelas de que gosto.
A verdade é que a vida não tem parado de me surpreender e, logo que dou algo como adquirido, deus ou alguma entidade sádica que faz as vezes dele encarrega-se logo de me explicar que não tenho o direito de criar certezas.
Morenas, dizia eu. Cinquentonas, anunciava. Magras e com as mamas pequenas, explicava perante os casos passados. E, dentro de mim, aspirava a que não me surgisse outra bimba porque a minha tolerância ao estilo "cabeleireira", "suburbana" ou "alcântara city" é cada vez menor.
Pois é... Então não é que ele me saí do carro com uma loira, olho azul, grandes mamas e a mesma idade que eu ?!!!
Agora que já me passou o espanto, será choque?, inicial, vejo tudo muito claro: deus tratou de me dar o que eu pedi. Eu queria algum classicismo na minha vida. Ora toma, agora amanha-te com o caso clássico do cinquentão com uma loira da idade da filha pelo braço.
Pois é... Eu queria algo clássico mas era no departamento ao lado, Excelência. Objecto errado, portanto.
Por tudo isto e porque as férias ainda me fazem rir disto tudo, não resisto a citar as "imortais" palavras desse "vulto" que é a Britney Spears quando ela diz: "Hit me Baby one more time".

domingo, agosto 20, 2006

Depois de um p... outro P.

Porque, se mesmo nos piores momentos, há sempre uma saída, agora é tempo de celebrar a vida.

Sem querer fazer publicidade à tmn, até já.

sexta-feira, agosto 18, 2006

Deixa-me rir

"Deixa-me rir
Essa história não é tua
Falas da festa, do Sol e do prazer
Mas nunca aceitaste o convite
Tens medo de te dar
E não é teu o que queres vender
Deixa-me rir
Tu nunca lambeste uma lágrima
Desconheces os cambiantes do seu sabor
Nunca seguiste a sua pista
Do regaço à nascente
Não me venhas falar de amor
Pois é , pois é
Há quem viva escondido a vida inteira
Domingo sabe de cor
O que vai dizer Segunda-Feira
Deixa-me rir
Tu nunca auscultaste esse engenho
De que que falas com tanto apreço
Esse curioso alambique
Onde são destilados
Noite e dia o choro e o riso
Deixa-me rir
Ou então deixa-me entrar em ti
Ser o teu mestre só por um instante
Iluminar o teu refúgio
Aquecer-te essas mãos
Rasgar-te a máscara sufocante
Pois é, pois é
Há quem viva escondido a vida inteira
Domingo sabe de cor
O que vai dizer Segunda-Feira"
Rui Malheiro e Tiago Leitão

Como a minha vida dava um filme (e espero que dê uma mera história), após estes anos e num dia em que vejo tudo nublado por causa da directa que trago no corpo, dou de caras contigo. Era o que faltava para tudo adquirir os contornos de surrealismo por que a minha existência se pauta.
Mal te reconheço. Na nossa competição mortífera, só me ganhavas na tua evidente beleza. Eras lindo e, talvez por isso, nunca te esqueci inteiramente. Tenho muita dificuldade em lembrar-me do que dizias mas ainda guardava na memória cada milimetro do teu corpo. Mesmo tendo vindo a descobrir depois que há quem seja tão melhor que tu no que realmente interessa, não me consegui nunca esquecer dos teus olhos, do teu sorriso de miúdo, dos ombros largos que me ampararam tantas vezes, da força que tinhas para me pegar ao colo e levar onde fosse preciso. De todas as jarras a que alude o M, tu eras a que eu sempre cobicei voltar a ter. Talvez por isso mesmo é que eu tivesse sido sincera quando te disse (e já lá vão tantos anos...) que desejava que os nossos putativos filhos herdassem a tua beleza e a minha cabeça.
Sinto-me um caos, curvada pelo cansaço que é extremo, vou de olhos no chão. E esbarro em ti. Estás uma lástima. Gordo, careca, sem brilho nos olhos. Tenho dificuldade em reconhecer o rapaz que me agarrou aquela noite no Alcantara Mar e nem consigo imaginar que foste o meu grande objecto de adoração. Credo, H., como é que o tempo te castigou, levando-te o que tinhas de melhor? Como é nesta história eu acabo mais bonita que tu, mesmo após uma noite de cigarro atrás de cigarro, red bull para não dormir e papeis por todo o lado?
Citando aquela música da Marisa Monte que eu adoro, o que é que a vida fez à tua vida? E o que não ia fazer eu à minha se por acaso tu não tivesses decidido que umas merdas de roupa de marca valiam mais do que nós dois?!
Apesar de tudo, apesar da imensa raiva que nutri por ti, o que nunca te conseguirei dizer é que, a existir, o teu deus tratou de fazer justiça poética. Estou melhor conservada que tu. Os teus antigos amigos são agora muito mais meus. Tirei-te cargo após cargo e ganhei-te tudo o que havia para ganhar, mesmo sem saber que me batia contra ti. Uso marcas no meu quotidiano que nunca poderás pagar ( e pensar que me trocaste por umas peças miseráveis da Polo e afins...).
Espero que tenhas saboreado o momento. Como sabes, sobrevivi. Estou para dar e durar.
E, por isso, olhando agora para ti, só me resta rir. Porque, como diz o meu primo da Maçonaria em tom de gozo, "os designios do Senhor são insondáveis". Mas, honra lhe seja feita, aqui ele esteve esteve bem. Muito bem.
Credo, H., não podendo herdar a tua inteligência por manifesta inexistência de objecto, se tivesse herdado a tua beleza tinha o destino contado.
Deixa-me, portanto, rir. O que seguramente nunca mais vou sequer pensar é que entraste em mim. Sob todos os aspectos.

quarta-feira, agosto 16, 2006

Venham ver o paraíso


É mesmo para aqui que eu vou...
Mas o título não me lembra só esta praia.
É o nome da primeira história que escrevi.
É o nome de um filme com Vincent Perez, aquele homem fabuloso. Daqueles que nunca devem abrir a boca porque ficam melhor calados.

Closer...

Eu podia ter escrito isto. Mas também podia ser parte nisto.


"Dan: Didn't fancy my sandwiches?
Alice: Don't eat fish.
Dan: Why not?
Alice: Fish piss in the sea.
Dan: So do children.
Alice: Don't eat children either. "


"Dan: It's not safe out there.
Alice: Oh, and it's safe in here? "

"Dan: You love her like a dog loves its owner.
Larry: And the owner loves the dog for so doing.
Dan: You'll hurt her. You'll never forgive her.
Larry: Of course I'll forgive her. I *have* forgiven her. Without forgiveness we're savages. You're drowning. "

"Anna: Why are you dressed?
Larry: Because I think you may be about to leave me and I don't want to be wearing a dressing gown."

"Alice: No one will ever love you as much as I do. Why isn't love enough?"

"Alice: How can one man be so endlessly disappointing?
Dan: That's my charm."

" Anna: I don't kiss strange men.
Dan: Neither do I."

"Anna: I'm sorry you're...
Larry: Don't say it! Don't you fucking say you're too good for me. I am, but don't say it"

"Larry - Alice, tell me something that's true.
Alice: Lying's the most fun a girl can have without taking her clothes off - but it's better if you do."

"Dan: At six, we stand round the computer and read the next day's page, make final changes, put in a few euphemisms to amuse ourselves...
Alice: Such as?
Dan: "He was a convivial fellow" - meaning he was an alcoholic. "He valued his privacy" - gay. "He enjoyed his privacy" - raging queen.
Alice: What would my euphemism be?
Dan: She was... disarming.
Alice: That's not a euphemism.
Dan: Yes, it is. "

E isto podia mesmo ser eu...

"Larry: So Anna tell me your bloke wrote a book. Any good?
Alice: Of course.
Larry: It's about you isn't it?
Alice: Some of me.
Larry: Oh, What did he leave out?
Alice: The Truth"

"Alice: I'm not a whore.
Larry: I wouldn't pay."

"Alice: Where is this love? I can't see it, I can't touch it. I can't feel it. I can hear it. I can hear some words, but I can't do anything with your easy words.
Larry: You don't know the first thing about love, because you don't understand compromise. "

"Larry: Is he a good fuck?
Anna: Don't do this.
Larry: Just answer the question! Is he good?
Anna: Yes.
Larry: Better than me?
Anna: Different. Larry: Better?
Anna: Gentler.
Larry: What does that mean?
Anna: You know what it means.
Larry: Tell me!
Anna: No.
Larry: I treat you like a whore?
Anna: Sometimes.
Larry: Why would that be?"

"Larry: You still pissing about on the net?
Dan: Not recently.
Larry: I wanted to kill you.
Dan: I thought you wanted to fuck me.
Larry: Don't get lippy."

"Larry - Are you flirting with me?
Alice: Maybe.
Larry: Are you allowed to flirt with me?
Alice: Sure.
Larry: Really?
Alice: No, I'm not. I'm breaking all the rules.
Larry: You're mocking me!"

"Dan: Do you have any children?
Anna: No.
Dan: Would you like some?
Anna: Yes, but not today."

"Anna: : I don't want trouble.
Dan: I'm not trouble.
Anna: You're taken.
Dan: I've got to see you.
Anna: Tough.
Dan: You... KISSED me!
Anna: What are you - TWELVE?"

"Dan: What's so great about the truth? Try lying for a change, it's the currency of the world"

terça-feira, agosto 15, 2006

O Clube dos Poetas Mortos

"A verdade é como um cobertor que deixa sempre os meus pés gelados. Tu podes pontapear, bater, e ele nunca vai chegar. Tu puxas, esticas, e ele nunca cobre ninguém. E desde o momento em chegamos chorando até o momento em que partimos morrendo, ele só vai cobrir o teu rosto, enquanto tu gemes, choras e gritas."

Embora ultimamente o filme da minha vida seja o "Era uma vez na América", foi aquele que mudou a minha vida. Comecei por adorar o Neil e, fruto do fluir do tempo, transferi esse sentimento para o CHarlie "Nuwanda". Nas noites em que me senti a vertigem do abismo e quase me deixei enfeitiçar, foi o Carpe Diem o que me fez suster a queda. Em vez de ser um Neil, tentei ser uma Nuwanda. Exercer o meu direito a não andar quando me sugerem fazê-lo. Escolher o caminho mais difícil e não ser delatora. Levantar-me, por os pés em cima da mesa e atrever-me a ver o mundo de outro prisma. E, pese embora tenha perdido o hábito de subir para cima de mesas (as RGA's e o Bugix ficaram lá atrás), gosto de pensar que ainda posso ter a ousadia de vislumbrar para além do óbvio.
No mais, a verdade é mesmo um cobertor que não estica. O que me vale é que ainda é Verão e a mentira não é minha.

segunda-feira, agosto 14, 2006

Histórias (des) encantadas

(Há uma explicação para vir aqui duas vezes. Os filhos da Paula e da Ana Bela saíram agora cá de casa e eu, acto contínuo, mandei uma mensagem ao meu pai a dar-lhe conta de que, caso queira netos, é melhor ir cravar os outros três que eu ia dar em louca se engravidasse. Credo, em cada mãe deve haver uma super-mulher porque eu estou exausta!)

Excertos - Natália

"Rui - Parabéns.
Natália- Olá, Sua eminência. Não fiques triste. Do lado de cá das trincheiras a merda é a mesma. Só as moscas é que mudaram.
Rui - O que queres dizer?
Natália - Que depois do champanhe nada mais restou.
Natália- Tu baralhas-me.
Natália - Tens mais sorte que eu. A mim, tu enojas-me."

"Miguel - Pare de ser infantil.
Natália - Eu não quero ser infantil. Já me contentava com menos sete anos".

" Miguel - Vamos ao Guincho.
Natália - Ok. Deixe-me só recorrer ao milagre da maquilhagem porque isto vai ser duro.
Miguel- Duro porquê?
Natália - porque o caminho é sempre mais duro quanto é feito a sós. Especialmente se for no meio de uma multidão porque temos companhia e perdemos o direito de dizer que estamos sós.
Miguel- Está de fazer chorar as pedras da calçada.
Natália - Pedras? Ya. Como vê, no fundo sou uma boa católica. Sigo o caminho que Jesus mandou: o das pedras.
Miguel - Se não der mostras de um limiar mínimo de lucidez eu próprio ligo ao seu pai.
Natália - Boa viagem. Primeiro vai ter de lhe explicar que eu existo.
Miguel- Não seja louca.
Natália Não existem loucos. Existem é dissidentes."

" Hugo - É verdade que dormiste com o Miguel?
Natália - É verdade que dormi com mais gajos do que os que vêm na Biblia. E culpo-me? Imenso. Todos os dias. Mas não o suficiente.
(...)
Natália - Ouve, nós f... três vezes. Enxuto o suor, já nada sabes de mim. E prefiro que assim seja.
Hugo - Vais embora? O que se passa? A chama apagou?
Natália - "O que é que isso me importa?/ O gelo que trago dentro/ gela e corta/ tudo o que é sonho e graça na mulher.
Hugo - O que é isso?
Natália - Flobela Espanca. Se fosse o resultado do Porto - qualquer coisa já sabias. Adeus.
Hugo - Se saires por aquela porta nunca mais entras.
Natália - Promessas."

"Natália - O teu parece ser interessante. O meu é um velho conhecido. Acho que saíste a lucrar.
Ana - Só porque é um desconhecido?
Natália - Os desconhecidos não são nem melhores, nem piores do que os outros. Enquanto não os conheces fica a dúvida e, nesse curto espaço de tempo, talvez valha a pena acreditar".

Manel - Natália, não achas que já chega?
Natália - Estás preocupado com o mau-aspecto?
Manel - Não, estou preocupado contigo.
Natália- Claro. Mas quando eu acordava contigo a enrolar charros ao meu lado estava tudo bem.
Manel - Não comeces?
Natália - "Mas porque raio eu não posso começar nada se tu acabas tudo?"

"Natália - Sabes a diferença entre o circo e o Plateau 4ª f. à noite? É que no circo os palhaços não se metem contigo."

" Nuno - Contigo era tudo ou nada. Eu não sou capaz de tudo, por isso é nada.
Natália - Sabes qual é o teu problema? É que tu és capaz de tudo mas não arriscas nada."

"Manel - Podes dar-me refúgio político que a Mafalda está a dar comigo em doido e eu não quero divorciar-me já?
Natália - Vem. claro. Mas será que podias trazer comida?
Manel- Mas tu não vais ao supermercado como uma mulher normal?
Natália - Não. Detesto carrinhos de supermercado - são os veículos mais caros que conheço".

" Manel - Posso entrar?
Natália - Primeiro a comida. Foste ao supermercado, certo?
Manel - Errado mas vou-me redimir. Convido-te para jantar.
Natália - E não gozamos o prazer de comer na minha casa?
Manel - Tua?
Natália - O divórcio foi hoje. Fiquei com a casa.
Manel - Mas porque raio ficaste tu com a casa?!
Natália - Porque sou uma óptima dona de casa. Cada vez que me divorcio fico sempre com a casa.
Manel - O conceito de família não te diz nada?
Natália - Claro que sim. Sou o mais possível a favor das famílias grandes. Cada mulher deve ter, pelo menos, dois ex-maridos".

Hugo - Afinal de que estilo de homens é que tu gostas?
Natália - Daqueles que vão para Paris com cinco eutos no bolso.

Hugo - Oh minha vaca, o que é que pensas que estás a fazer?
Natália - A comprar comida? Devias saudar-me por este sacrifício.
Hugo - E pensar que casei contigo e vivemos juntos.
Natália - Nós não vivemos juntos. Ocupámos a mesma jaula.
Hugo - És uma perfeita besta. Maldita a hora que te conheci. O que é que vais fazer a seguir? Lixar-me ainda mais a vida?
Natália - Detesto desiludir-te mas estou inocente desta vez. E, quanto a matar-te, só se fosse com requintes de malvadez mas isso ia exigir-me imenso trabalho porque estás muito gordo.
Hugo - Gordo? Eu?
Natália - Sabes como é que te livras de 94 quilos de gordura inútil? Pedes o divórcio. Foi o que eu fiz e agora sai-me da frente".

Miguel - Venha a minha casa. Não confia em mim?
Natália - Não. O último lampejo de lucidez manda-me não confundir. E há toda a questão moral inerente mas estou-me a marimbar nessa.
Miguel - Querida, como diz o seu escritor preferido, o inferno são os outros.
Natália - Está errado. O inferno somos nós.
Miguel - Para quê ser normal se pode ser extraordinária?
Natália - Extra ... ordinária?!
Miguel - Só Jesus Cristo era perfeito e viu-se no que deu".

E sim, desta vez a história sai. Antes do código anotado.

As Histórias (Des) encantadas e o eterno Porto-santo

Daqui a uma semana, se a TAP não me boicotar, estarei a aterrar no Porto-Santo. Levo na bagagem uns inconfessáveis quilos de roupa, alguns livros e um caderno em branco.
Já que atirei a Beatriz para o lado, espero que seja desta que escrevo a minha história. A nossa história. A história deste grupo que desconhece este blog mas que sempre me acompanhou. Os rostos de sempre. As mesmas conversas. Aqueles disparates que se dizem apenas porque sabemos que estamos entre amigos. A minha existência tumultuosa porque eu nunca aprendi a jogar pelo seguro e os eternos cuidados deles quando me aproximo demais do abismo.
O Porto-Santo tem funcionado sempre como o meu porto de abrigo. Foi naquele areal que gozei pela primeira vez da fama de ser engraçada. Foi naquele areal que me senti bonita pela primeira vez. Foi naquele areal que passeei com a minha avó. Foi naquele areal que a ideia de sair de casa (e já passou tanto tempo...) me assolou e foi também ali que cresceu dentro de mim um ódio visceral à minha madastra e a um dos meus primos.
Por ironia, nada de verdadeiramente importante me aconteceu naquela ilha. Nunca me apaixonei lá. Nada despertou a minha atenção. Nunca dei por mim lá naquelas fases em que só queria dançar e esquecer o que me rodeava. Não foi palco daqueles meus ataques de loucura em que me ria até chorar ou em que chorava até me rir. Passou-lhe ao lado o desmoronar da minha grande paixão e a minha doença. Ninguém dali assistiu à célebre conversa com o meu João que mudou a minha vida e, no âmbito da qual, ele me explicou que o meu modo de vida tinha os dias contados e que, se eu não quisesse um destino a tender para a novela mexicana, talvez não fosse má ideia travar a fundo e tentar construir alguma coisa de sólido, em vez de me refugiar em relacionamentos que eu própria condenava à partida.
Espero poder vir a dizer que recomecei a escrever na ilha dourada.
(O meu João -aquele que tenho como irmão- e a Patrícia também vêm. Fará lá falta a Ana Bela mas não se pode ter tudo. Dois pares e o meu pai. Se um dia me dissessem que iria estar no Porto-Santo nestas condições acho que não acreditaria.)
Daqui a uma semana estarei de novo na praia. Tomarei banhos de mar, comerei lapas e sopa de tomate e beberei brisas de maracujá umas atrás das outras. Não há nada como estar em casa. E eu sempre achei que uma parte de mim mora lá. Onde posso ser inteiramente livre. Onde me estou nas tintas para tudo e todos. Onde tudo me parece longe, longe demais para sequer me preocupar. Onde a memória da minha avó permanece intocável e me faz companhia.
Lembrei-me agora que nunca dancei lá na praia. Está feito. É este ano. Levarei um dos meus vestidinhos pretos e vou arrastar a Patrícia e uma garrafa de Moet. Talvez eu preferisse dançar com o meu par de sempre (a célebre valsa no Guincho será sempre um episódio memorável) mas já nenhum de nós tem idade ou margem de manobra para isso.

domingo, agosto 13, 2006

À beira dos trinta...

Daqui a uns parcos dois meses e uns dias farei trinta anos. Pese embora os meus amigos tenham sempre conseguido imaginar-me com sessenta anos (não, não era um bom prognóstico... englobava uma madeixa branca, uma bengala de cabo de prata e a mala sempre aberta para subornar os netos deles para irem gritar para longe), nunca me dei ao trabalho de pensar como seria ter esta idade em que não somos carne nem peixe (em rigor, não somos carne nem ossos). Agora que os sinto perto, não acho nada de especial. Com algumas excepções (entre elas, enfim, a celulite e as rugas ridículas perto dos olhos), sinto-me a mesma de sempre.
Desilusões à parte, estou quase igual ao que era. Estranho mundo este!
(Na verdade, estou melhor! Nunca um divórcio me soube tão bem quanto o do meu pai. Citando a máxima do Confucio, a melhor forma de se conseguir uma coisa é desistir dela.)

sexta-feira, agosto 11, 2006

Porque já não ouvia isto há muito tempo...

Sixpence None The Richer
Kiss Me

Kiss me out of the bearded barley.
Nightly, beside the green, green grass.
Swing, swing, swing the spinning step
You wear those shoes and I will wear that dress.
Oh, kiss me
beneath the milky twilight.
Lead me out on the moonlit floor.
Lift your open hand.
Strike up the band and make the fireflies dance,
silver moon's sparkling.
So kiss me.
Kiss me down by the broken tree house.
Swing me high upon its hanging tire.
Bring, bring, bring your flowered hat.
We'll take the trail marked on your father's map.

quinta-feira, agosto 10, 2006

Marilyn Monroe

Vem desde miúda a minha fixação com a Marilyn Monroe.
Quando olho para as fotografias dela, vejo uma mulher dulcíssima a transfigurar-se na burra que nunca foi. E não deixo de me comover com o destino trágico, irónico e solitário dela. Morreu como viveu grande parte da sua vida: nua e na cama. Mas até para isso ela tinha resposta. Dizia que o sexo nunca tinha feito mal a ninguém (OK, ainda não tinha hipótese de ter tomado contacto com os celébres videos do Taveira e que contrariam esta afirmação).
A Marilyn tinha uma aura imensa, uma luz e um brilho que a faziam parecer etérea, uma beleza infinita. Eu, que sempre preferi as "femme fatale", a linha dura e inacessível, acho-a linda de morrer. E, mais do que isso, é dela um dos meus poemas preferidos.
Obrigado, Marilyn. Não por teres sido essa rábula. Apenas por teres escrito aquelas linhas.
http://www.marilynmonroe.ca/camera/galleries/black/blk39.html

quarta-feira, agosto 09, 2006

A Beatriz que nunca chegou a ser..

Como diz o cantor," tenho duas almas em guerra e sei que nenhuma vai ganhar".
Em pleno Plateau, dei por mim a pensar numa frase que, numa noite de raiva cega, gritei a um homem: "eu tenho espírito de cigarra e não quero parar de dançar". Vinha isto a propósito, segundo me lembro, de eu ter gasto umas largas centenas de contos em malas, sapatos, maquilhagem e outros bens afins, o que ele (ganhando muito menos que eu) achava uma loucura. O eterno dilema da comuna de óculos escuros da Chanel.
Hoje em dia, as minhas duas almas continuam em guerra. Uma parte de mim quer ser muito organizada. A outra está-se literalmente nas tintas para isso.
A minha faceta organizada, impressionada por casos paralelos, decidiu que iria ter uma filha, chamada Beatriz, a qual estudaria no Colégio Alemão e engataria os filhos dos meus amigos. Pareceu-me sempre um destino feliz para uma criança promissora.
Sem sequer existir, a Beatriz foi ganhando espaço na vida de terceiros, à custa da propaganda que eu fazia (nem que mais não fosse, ameaçando os meus amigos que o meu "rebento" iria partir os corações dos filhos deles).
A noite passada, a minha faceta boémia teve uma vitória importante. Decidiu que eu própria já me assemelho a uma criança, de modo que não é preciso mais ninguém.
A Beatriz - que nunca chegou a ver a luz do dia - ficou encostada a um canto, ao lado de outros projectos que nunca executei.
Provavelmente, era caso para eu estar triste. Não estou. Estou até bastante liberta.
Adeus Beatriz.

quinta-feira, agosto 03, 2006

That's what friends are for...

Olho para ti, sentada quase ao meu lado. Escreves entre lágrimas no teu blog o que eu já teria gritado há muito tempo.
Cold Water, somos, de facto, muito diferentes. Tomaste a decisão de teres um filho em condições que me teriam feito repudiá-lo. Aceitaste uma viagem sem regresso quando eu nunca teria saído do cais de embarque e tomaste entre braços um ser que se tornou o centro da tua vida.
Talvez nunca te consiga dizer a viva voz que tenho um incomensurável orgulho de ti. Talvez nunca te consiga dizer que, independentemente de com quem durmas ou com quem f..., te acho muito superior à maior parte desta gentinha que se julga acima de todas as críticas. Tu fazes o que o teu coração vai ditando e isso é muito mais genuíno do que uma qualquer lealdade cimentada por inércia. O teu caminho pode ser árduo mas, seguramente, não é obra de alguém maquiavélico que canaliza toda a sua energia em truques de meia-tijela, em esquemas estranhos, em desejos sombrios e esconços.
Por isso, pelo que está aqui (e pelo que não está), digo-te que não deixes que te digam o oposto.
Lá está... Não te consigo dizer. Por isso: peço-te para leres.
E dá um beijo ao meu sobrinho João que não tem culpa do pai que tem.

terça-feira, agosto 01, 2006

Já dançaste com o diabo ao luar?

Por razões que não relevam, dei por mim a recordar as noites em que dancei no Guincho, embalada pelo mar, movida por Moet e acompanhada pelo Homem dos olhos azuis. Vim aqui dar. E, volvidos estes anos, sei a resposta para a pergunta que ele me fez. Dancei, de facto. Mas ele não estava lá. Tal como dizia Sartre, o inferno são os outros. E, do ponto de vista dele, eu fui o inferno que ele nunca adivinhou.
O meu inferno? O meu inferno é o tempo. É andar a correr para a morte sem ter tempo para dançar a vida. O meu inferno? O meu inferno foram as rugas dele ao alcance do meu olhar, o medo que senti de envelhecer só por estar ali. O meu inferno foi o de querer ser estrela e não caberem duas no mesmo firmamento.