Devo ter sido das poucas que lamentei profundamente a queda do Governo de Santana. Ninguém fez tanto pelo humor em Portugal como aquela equipa. Por isso mesmo, quando Sampaio anunciou a saída de cena, antevi logo que, sendo Sócrates parecido em termos de ideologia - até porque se iniciou na mesma JSD -, teria muito menos piada. Durante aqueles meses, eu ri que nem uma perdida com o que se passava. Portugal parecia convertido num filme grotesco, o que, não sendo saudável, era engraçado.
Durante a campanha, Santana Lopes teve ainda oportunidade de um inesquecível canto do cisne e que foi o célebre vídeo do "Menino Guerreiro", no limiar do que de mais ridículo se fez. Eu gravei o vídeo, claro. Para quem ainda não tinha percebido que o Santana Lopes gostava de "colo", ele confessa-o expressamente, trazendo para a campanha assuntos de alcofa (e depois queixa-se...). Quando se julgava que nada podia ser pior do que aquela fotografia no cruzeiro da Caras, eis que um candidato a Primeiro-Ministro elege como mensagem de propaganda uma canção lamechas e se designa a ele mesmo como "Menino Guerreiro" - o que até pela próximidade do processo da Casa Pia não foi feliz -, surgindo em primeiro plano com imagens de Sá Carneiro atrás, no que sempre pareceria um aproveitamento inaceitável.
Depois do período de nojo, Santana Lopes escreveu um livro e, à semelhança do do Carrilho, eu comprei-o e estou a lê-lo atentamente.
A única dúvida que subjaz ao ler o livro é a de saber se o que Santana Lopes conta se passou em Portugal. É que, a cada passo, eu relembro a cena da Ministra Carmo Seabra a dizer que se recusava a ir ao Parlamento porque considerava que já tinha dado todas as explicações na Televisão. Daí a pergunta: o livro fala de percepções ou de realidade?
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