Olho-me ao espelho do alto dos meus vinte e oito anos. Vejo nos meus olhos rescaldos de histórias passadas, no que de muito bom e muito mau tiveram, quase que me (re) vejo a chorar e a rir como só eu sou capaz.
Passaram já alguns meses desde a morte do João Luís. Uma morte que me surpreendeu pela brutalidade e pelo imenso vazio que me trouxe. A morte tem destas coisas: deixa sempre um frio gélido e um vazio repleto de caras. Caras que nada de interessante nos dizem, cuja voz associada só serve para nos deixar com mais saudades da que se cala para sempre. Ainda hoje tenho muitas saudades do riso dele. E de me chamar "menina". Saudades da resposta pronta dele, sem meias-medidas, sem diplomacia. Do riso dele quando me queixei de me tratarem como uma boneca e da resposta: "Páre de se assemelhar a uma e verá como isso passa. Se não passar, o tempo resolve esse problema". O João Luís morreu. Em setembro. E só agora fui capaz de o escrever...
Escolhi precisamente este momento porque parte de mim renasceu há poucas semanas. A eterna lógica do contínuo renascer. O João Luís morreu. Mas o seu riso continua a ecoar em mim. E, por isso, ele vingou-se da morte, rindo-se.
A boa notícia é que este ano que me ia matando também produziu os seus frutos... E eu, que quase me ia matando, sobrevivi. Estou aqui. Desta feita, o quase foi ao contrário. Quase me ia matando mas sobrevivi. Estou aqui.
E, reproduzindo uma frase que não me sai da cabeça, "agora nós, C....".
Sim, porque por enquanto, aqui estou. Voltei.
E, por isso, olho-me ao espelho. Inacreditavelmente, resisti. Ainda cá estou. E as lágrimas que chorei só serviram para de iluminar o olhar.