Aproxima-se. E ainda não estudei nada.
Nem sei se consigo estudar. Estou exausta.
A Girl Emerging internada e sem retorno.
O big boss em campanha.
E aqui a tonta a despachar prazos, a ir a acareações, a ir a tribunal.
Merda. Será que não posso chegar lá e dizer que dou por integralmente reproduzido o que disse na tese?
quarta-feira, outubro 31, 2007
domingo, outubro 28, 2007
E então?!
Irão: «Não há provas de armas nucleares»
Querem lá ver que foi isso que impediu os EUA de invadirem o Iraque?!
A tese e a outra.
Acendo um cigarro e só consigo pensar que dia 9 está aí a estoirar.
Hesito entre uma defesa puramente jurídica e uma outra, mais apaixonada.
Dou por mim a recordar as minhas palavras, dirigidas há uns anos a um homem: Eu sou cigarra.
Gosto de festas, é certo. Acima de tudo, do que gosto é de pensar que vivi. Que dei de mim às pessoas e às coisas. Que não fui indiferente.
Hoje vi uma rapariga, homónima minha. Há quinze anos atrás, ela era um sex symbol e eu era tida como a feiosa. Agora, tem duas filhas, está horrível e destruída. E eu, sem filhas - e, segundo os médicos sem hipóteses de as vir a ter -, tenho a pele lixada, um cabelo frágil como tudo. Tirando isso, o meu corpo não se compara com o dela. Mesmo não me achando um primor, sei ver que estou muito melhor. Até na escolha da indumentária, no meu caso tirada quase ao acaso do guarda-roupa, meia a dormir.
A vida é, de facto, muito irónica. Naquela altura, eu era a intelectual e tinha uma inveja enorme do sucesso dela junto dos rapazes. Actualmente, sei-o bem, nem sequer somos comparáveis. E eu vivi. Não desfiz as unhas a lavar a loiça. Não me deixei esmorecer em canseiras com filharada e maridos atrasados mentais. Não me passei a vestir de mulher casada, quase à laia de doméstica.
Vivi. Tive desilusões. Chorei imenso e ri-me mais. Gasto o meu dinheiro não em fraldas mas numa casa, em roupa, cabeleireiros, viagens e livros. E, olhando para ela, mesmo sabendo que o meu tempo está a esvair-se e me estou a desfazer, confesso que não me arrependo.
Hesito entre uma defesa puramente jurídica e uma outra, mais apaixonada.
Dou por mim a recordar as minhas palavras, dirigidas há uns anos a um homem: Eu sou cigarra.
Gosto de festas, é certo. Acima de tudo, do que gosto é de pensar que vivi. Que dei de mim às pessoas e às coisas. Que não fui indiferente.
Hoje vi uma rapariga, homónima minha. Há quinze anos atrás, ela era um sex symbol e eu era tida como a feiosa. Agora, tem duas filhas, está horrível e destruída. E eu, sem filhas - e, segundo os médicos sem hipóteses de as vir a ter -, tenho a pele lixada, um cabelo frágil como tudo. Tirando isso, o meu corpo não se compara com o dela. Mesmo não me achando um primor, sei ver que estou muito melhor. Até na escolha da indumentária, no meu caso tirada quase ao acaso do guarda-roupa, meia a dormir.
A vida é, de facto, muito irónica. Naquela altura, eu era a intelectual e tinha uma inveja enorme do sucesso dela junto dos rapazes. Actualmente, sei-o bem, nem sequer somos comparáveis. E eu vivi. Não desfiz as unhas a lavar a loiça. Não me deixei esmorecer em canseiras com filharada e maridos atrasados mentais. Não me passei a vestir de mulher casada, quase à laia de doméstica.
Vivi. Tive desilusões. Chorei imenso e ri-me mais. Gasto o meu dinheiro não em fraldas mas numa casa, em roupa, cabeleireiros, viagens e livros. E, olhando para ela, mesmo sabendo que o meu tempo está a esvair-se e me estou a desfazer, confesso que não me arrependo.
sexta-feira, outubro 26, 2007
Neoliberalismo e afins...
Venho do Congresso de Direito do Trabalho entre o divertido e o perplexo.
Assisti à defesa do mais puro neoliberalismo com um argumento absolutamente rídiculo, a saber: os direitos dos trabalhadores devem ser comprimidos por forma a se providenciar pela sustentabilidade da segurança social. No dizer da besta pseudo-intelectual, faz sentido haver precariedade da relação laboral por causa do futuro do Estado de Direito.
Eu reagi, explicando que é ao contrário. Cada vez que um contratado a prazo é ilicitamente posto no desemprego, quem paga somos nós todos. Cada vez que um trabalhador é sujeito a assédio moral e, não resistindo, recorre à baixa médica, quem paga somos nós.
Isto não é óbvio?
Assisti à defesa do mais puro neoliberalismo com um argumento absolutamente rídiculo, a saber: os direitos dos trabalhadores devem ser comprimidos por forma a se providenciar pela sustentabilidade da segurança social. No dizer da besta pseudo-intelectual, faz sentido haver precariedade da relação laboral por causa do futuro do Estado de Direito.
Eu reagi, explicando que é ao contrário. Cada vez que um contratado a prazo é ilicitamente posto no desemprego, quem paga somos nós todos. Cada vez que um trabalhador é sujeito a assédio moral e, não resistindo, recorre à baixa médica, quem paga somos nós.
Isto não é óbvio?
segunda-feira, outubro 22, 2007
domingo, outubro 21, 2007
sábado, outubro 20, 2007
Aos trinta e um...
"O, Time
Be kind.
Help this weary being
To forget what is sad to remember
Loose my loneliness,
Ease my mind,
While you eat my flesh".
MM
terça-feira, outubro 16, 2007
O suicídio
Tenho dúvidas que alguém tenha pensado mais em matar-se do que eu.
Vezes sem conta. A ideia do vestido preto, a tal área do Lago dos Cisnes. Um último texto dramático, do qual ainda guardo diversos rascunhos.
Nunca o escrevi em definitivo e nenhum dos meus vestidos pretos serviu para tomar o meu derradeiro gole de Moet.
E, aos trinta, sou confrontada com duas tentativas consecutivas daquela que compartilhava o mesmo corredor.
E desconfio que esteja mais cansada disto do que a própria, que deve estar a dormir nos aposentos do Júlio de Matos (está mal; eu é que dizia que, se ficasse louca varrida, queria ir para lá para ficar perto da Av.ª de Roma...).
Tudo porque tenho trinta anos, quase nos trinta e um. E ela tem um filho. Um filho é um compromisso para a vida. Diria até que o único.
Não percebo o que leva alguém a desistir do filho. Especialmente porque ele tem dois anos.
E tudo isto dói.
Se um dia voltar a pensar em suicídio, mato-me e pronto. Não vou andar a tentar faseadamente.
Dou por mim extraordinariamente triste. Farta de tudo o que me rodeia.
A única certeza que tenho é que, por ora, não me vou matar.
Entre eleições e tentativas de suicídio, alguém tem de cumprir os prazos.
Infelizmente, parece que sou uma delas.
(E agora que penso nisso... acabo de fazer uma declaração de vida no exacto momento em que me estou - literalmente - a desfazer.
E talvez só agora - que descobri que não os posso ter - é que percebi o que um filho representa. )
Vezes sem conta. A ideia do vestido preto, a tal área do Lago dos Cisnes. Um último texto dramático, do qual ainda guardo diversos rascunhos.
Nunca o escrevi em definitivo e nenhum dos meus vestidos pretos serviu para tomar o meu derradeiro gole de Moet.
E, aos trinta, sou confrontada com duas tentativas consecutivas daquela que compartilhava o mesmo corredor.
E desconfio que esteja mais cansada disto do que a própria, que deve estar a dormir nos aposentos do Júlio de Matos (está mal; eu é que dizia que, se ficasse louca varrida, queria ir para lá para ficar perto da Av.ª de Roma...).
Tudo porque tenho trinta anos, quase nos trinta e um. E ela tem um filho. Um filho é um compromisso para a vida. Diria até que o único.
Não percebo o que leva alguém a desistir do filho. Especialmente porque ele tem dois anos.
E tudo isto dói.
Se um dia voltar a pensar em suicídio, mato-me e pronto. Não vou andar a tentar faseadamente.
Dou por mim extraordinariamente triste. Farta de tudo o que me rodeia.
A única certeza que tenho é que, por ora, não me vou matar.
Entre eleições e tentativas de suicídio, alguém tem de cumprir os prazos.
Infelizmente, parece que sou uma delas.
(E agora que penso nisso... acabo de fazer uma declaração de vida no exacto momento em que me estou - literalmente - a desfazer.
E talvez só agora - que descobri que não os posso ter - é que percebi o que um filho representa. )
domingo, outubro 14, 2007
O orçamento de 2008
Contra a corrente, a dotação para a Justiça aumentou.
Para melhorar o parque informático dos tribunais? Nah.
Para dar formação aos profissionais do foro? Nah.
Para dar condições de trabalho? Nah.
Ah, claro. Para a criação de bases do ADN. É exactamente disso que nós mais precisamos: os tribunais podem estar cheios de processos mas, pelo menos, a polícia sabe quem és.
(E a conversa de que quem invalide uma solução por acordo passa a pagar as custas todas, independentemente de ter razão ou não?! É impressão minha ou está-se a tentar resolver o problema da pendência da forma errada?)
Para melhorar o parque informático dos tribunais? Nah.
Para dar formação aos profissionais do foro? Nah.
Para dar condições de trabalho? Nah.
Ah, claro. Para a criação de bases do ADN. É exactamente disso que nós mais precisamos: os tribunais podem estar cheios de processos mas, pelo menos, a polícia sabe quem és.
(E a conversa de que quem invalide uma solução por acordo passa a pagar as custas todas, independentemente de ter razão ou não?! É impressão minha ou está-se a tentar resolver o problema da pendência da forma errada?)
Moda Lisboa
Sábado fui a esse belo evento que é a Moda Lisboa Estoril, a qual decorreu em Cascais.
Confusos?
Confusa fiquei eu. Esperei meia hora numa fila, vi gentinha passar-me à frente, estive sentada num degrau. Tudo para ver anorécticas cheias de celulite, desfilando coisas estranhas, durante quinze minutos.
Medo... Muito medo.
A moda não tem nada a ver com isto. Ou se calhar tem e eu é que não estou a ver a coisa.
Enfim... Nunca mais digam que eu sou magra. Perto daquelas criaturas, sou até anafada.
Confusos?
Confusa fiquei eu. Esperei meia hora numa fila, vi gentinha passar-me à frente, estive sentada num degrau. Tudo para ver anorécticas cheias de celulite, desfilando coisas estranhas, durante quinze minutos.
Medo... Muito medo.
A moda não tem nada a ver com isto. Ou se calhar tem e eu é que não estou a ver a coisa.
Enfim... Nunca mais digam que eu sou magra. Perto daquelas criaturas, sou até anafada.
quinta-feira, outubro 11, 2007
O Xana
No 11º ano fui eleita Directora do jornal da escola, a partir de então apelidado de "Remar contra a corrente". Passei a semana da Páscoa a levantar-me às oito da manhã porque tinha visto um homem a pedir à porta do Centro Roma que eu identificara como um dos participantes numa programa sobre SIDA. Meti na cabeça que tinha de o entrevistar e acabei por conseguir. Chamava-se Eduardo.
A então Presidente do Conselho Directivo decidiu censurar a que foi a primeira entrevista. Pressão para cá, pressão para lá, acabei, meses volvidos, por conseguir publicá-la. Entretanto o Eduardo morrera no Curry Cabral.
A morte dele - que nunca chegou a ver a entrevista publicada - tocou-me muito.
Menos de um ano depois, inscrevi-me como voluntária na Liga Portuguesa Contra a Sida e fui a primeira a fazer apoio hospitalar. Naquela altura, tinha 17 anos e era um bocado "beta". Fui aceite, em parte porque aqueles homens, mesmo quase a morrer, tinham forças para me achar graça. Simultaneamente, passei os testes todos que me foram fazendo.
Ainda me lembro de o meu pai ficar horrorizado por eu conhecer pelo nome e fazer questão de cumprimentar todos os arrumadores, drogados e afins. Eles devolviam-me o gesto (até me devolveram mais do que isso: o autorádio do meu pai, furtado à porta de casa, a minha própria carteira e parte do recheio da casa do meu primo).
Principalmente depois da morte da minha avó, eles preencheram um vazio grande que me assolou. Principalmente o Xana. O Xana era um personagem fabuloso, incapaz de assaltar pessoas (achava horrível roubar malas a velhinhas), que me tentou subornar com bombocas para eu lhe ir comprar drogas e que me passou a proteger.
Fui muitas vezes vê-lo ao Casal Ventoso e até foi numa dessas visitas que eu decidi acabar com aquilo.
Entrei numa barraca, à procura dele, muito para lá da meia-laranja. Não o achei mas deparei-me com um bebé. Achei-o muito quieto e fui pegar-lhe ao colo. Estava morto. Entre em pânico e não me sentia capaz de largar o corpo, mesmo estando já frio. O Xana apareceu e decidimos chamar a polícia. Que não veio porque tinha medo de passar a meia laranja.
A única solução foi sair eu dali, com o bebé ao colo. O Xana, apesar de procurado pela mesma polícia que tinha medo de lá entrar, decidiu acompanhar-me.
A imagem ficou-me para sempre: eu de saia travada e saltos altos, com uma criança morta nos braços, com o Xana, já nas últimas, ao meu lado.
Nunca mais voltei a pegar num morto. Mas, muitas vezes, até sinto falta daquela solidariedade dele, disposto a ser apanhado só para eu não ir sozinha.
Aposto que outras caminhadas que agora faço se tornavam menos áridas.
Tenho saudades tuas, Xana.
A então Presidente do Conselho Directivo decidiu censurar a que foi a primeira entrevista. Pressão para cá, pressão para lá, acabei, meses volvidos, por conseguir publicá-la. Entretanto o Eduardo morrera no Curry Cabral.
A morte dele - que nunca chegou a ver a entrevista publicada - tocou-me muito.
Menos de um ano depois, inscrevi-me como voluntária na Liga Portuguesa Contra a Sida e fui a primeira a fazer apoio hospitalar. Naquela altura, tinha 17 anos e era um bocado "beta". Fui aceite, em parte porque aqueles homens, mesmo quase a morrer, tinham forças para me achar graça. Simultaneamente, passei os testes todos que me foram fazendo.
Ainda me lembro de o meu pai ficar horrorizado por eu conhecer pelo nome e fazer questão de cumprimentar todos os arrumadores, drogados e afins. Eles devolviam-me o gesto (até me devolveram mais do que isso: o autorádio do meu pai, furtado à porta de casa, a minha própria carteira e parte do recheio da casa do meu primo).
Principalmente depois da morte da minha avó, eles preencheram um vazio grande que me assolou. Principalmente o Xana. O Xana era um personagem fabuloso, incapaz de assaltar pessoas (achava horrível roubar malas a velhinhas), que me tentou subornar com bombocas para eu lhe ir comprar drogas e que me passou a proteger.
Fui muitas vezes vê-lo ao Casal Ventoso e até foi numa dessas visitas que eu decidi acabar com aquilo.
Entrei numa barraca, à procura dele, muito para lá da meia-laranja. Não o achei mas deparei-me com um bebé. Achei-o muito quieto e fui pegar-lhe ao colo. Estava morto. Entre em pânico e não me sentia capaz de largar o corpo, mesmo estando já frio. O Xana apareceu e decidimos chamar a polícia. Que não veio porque tinha medo de passar a meia laranja.
A única solução foi sair eu dali, com o bebé ao colo. O Xana, apesar de procurado pela mesma polícia que tinha medo de lá entrar, decidiu acompanhar-me.
A imagem ficou-me para sempre: eu de saia travada e saltos altos, com uma criança morta nos braços, com o Xana, já nas últimas, ao meu lado.
Nunca mais voltei a pegar num morto. Mas, muitas vezes, até sinto falta daquela solidariedade dele, disposto a ser apanhado só para eu não ir sozinha.
Aposto que outras caminhadas que agora faço se tornavam menos áridas.
Tenho saudades tuas, Xana.
terça-feira, outubro 09, 2007
Ah, então tudo bem...
"A empresa diz ainda que embora tenha deixado de ser Director de Informação em 2004, José Rodrigues dos Santos «continuou a auferir a mesma remuneração que o coloca como um dos quadros mais bem pagos da RTP».
É caso para dizer: mas esta gente é parva ou só se faz?!
Valha-me Deus, devem tirado o curso no mesmo sítio do nosso Primeiro.
É caso para dizer: mas esta gente é parva ou só se faz?!
Valha-me Deus, devem tirado o curso no mesmo sítio do nosso Primeiro.
Rídiculo
Hoje, achava eu, ia fazer os registos provisórios da minha nova casa. A tal.
Mas só achava.
A Senhora Conservadora recusou o registo porque o procurador dos vendedores tinha poderes para fazer registos definitivos. Segundo ela, não para fazer os provisórios.
Haja pachorra.
Mas só achava.
A Senhora Conservadora recusou o registo porque o procurador dos vendedores tinha poderes para fazer registos definitivos. Segundo ela, não para fazer os provisórios.
Haja pachorra.
terça-feira, outubro 02, 2007
segunda-feira, outubro 01, 2007
Ainda a Beatriz
A semana passada lá decidi novamente ir contribuir para a riqueza do Grupo Mello.
Dei entrada na CUF Descobertas, de livro debaixo do braço e munida de alguma paciência.
Passadas três horas, cinco tubos de sangue tirados, um desmaio e uns cigarros, lá me foi dado (mais) um diagnóstico.
A coisa não está famosa, já sabia. Mas o inevitável aconteceu: logo a seguir a avisar-me que não posso engordar mais de cinco quilos, a médica diz-me que eu não posso engravidar. Agora não, por causa dos drunfos. Depois, em princípio também não porque não vou aguentar o peso (admitindo que consigo vencer esta porcaria sem precisar de medicamentação forte o resto da minha vidinha...). "Isto", entenda-se, parece ser uma variante do lúpus. Mas parece apenas. Porque em mim, definitivamente, as aparências iludem. Basicamente, o meu corpo acha que o meu corpo é inimigo. Bem que eu aos catorze dizia que era a pior inimiga de mim mesma. Escusava era de ser tão literalmente.
Posto isto, Sábado fui a um casamento. Durante a missa, estive com o João Felipe ao colo e pensei: "Que merda! Uma coisa é eu não querer, outra é dizerem-me que não posso ter".
Logo agora, que as crianças me adoram e eu começo a entender-me com elas.
Enfim... Pelo menos vou poder gastar em cremes, livros e roupa o que os outros gastam em creches.
Dei entrada na CUF Descobertas, de livro debaixo do braço e munida de alguma paciência.
Passadas três horas, cinco tubos de sangue tirados, um desmaio e uns cigarros, lá me foi dado (mais) um diagnóstico.
A coisa não está famosa, já sabia. Mas o inevitável aconteceu: logo a seguir a avisar-me que não posso engordar mais de cinco quilos, a médica diz-me que eu não posso engravidar. Agora não, por causa dos drunfos. Depois, em princípio também não porque não vou aguentar o peso (admitindo que consigo vencer esta porcaria sem precisar de medicamentação forte o resto da minha vidinha...). "Isto", entenda-se, parece ser uma variante do lúpus. Mas parece apenas. Porque em mim, definitivamente, as aparências iludem. Basicamente, o meu corpo acha que o meu corpo é inimigo. Bem que eu aos catorze dizia que era a pior inimiga de mim mesma. Escusava era de ser tão literalmente.
Posto isto, Sábado fui a um casamento. Durante a missa, estive com o João Felipe ao colo e pensei: "Que merda! Uma coisa é eu não querer, outra é dizerem-me que não posso ter".
Logo agora, que as crianças me adoram e eu começo a entender-me com elas.
Enfim... Pelo menos vou poder gastar em cremes, livros e roupa o que os outros gastam em creches.
Foi há dezoito anos.
Na minha fase sub-urbana, morei em São João da Talha.
Naquela altura, o José Carreira era "apenas" o cunhado do Helder, uma das minhas primeiras paixonetas (a última vez que o vi, tinha barriga, uma aliança no dedo e um ar igualmente sub-urbano), e morava exactamente abaixo de mim.
Só cerca de dois anos mais tarde é que percebi que ele era um dos mais acérrimos lutadores da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia. Lembro-me de o ver na famosa investida de polícias contra polícias e de ter ficado muito revoltada com as imagens. Morreu, salvo erro, em 2003, sem que a maior parte das pessoas tivesse sequer consciência do que aquele passou apenas por lutar pelos seus ideais.
E se me lembrei hoje disto, é apenas porque se fala hoje na morte do pai do Cavaco Silva mas, com o devido respeito, ninguém se lembra do José Carreira.
Cavaco Silva quase que conquistou uma imagem de consenso, já que este país tem fraca memória.
E, no seguimento, dei por mim a recordar a minha primeira aparição televisiva. Foi um pouco depois, por causa da PGA (não, não é a Portugália; esse é outro filme e muito posterior), tendo eu, entre outras, explicado com um ar muito sereno o que era um misantropo.
Naquela altura, eu tinha um ar muito, muito beto (lembro-me de estar de argolas grandes e douradas e de blaiser aos quadrados em tons de castanho) e ninguém lá em casa sabia bem quais eram as minhas inclinações políticas. Qual não é o espanto do meu pai e da minha avó quando, ao jantar, se deparam comigo, filmada na manifestação, sem que tivesse chegado a casa sequer com um fio de cabelo fora do sítio. E eu, impávida e serena, a pedir que me passassem a salada.
A minha avó olhou para mim, de olhos arregalados. O meu pai sorriu.
Na manifestação subsequente, lá estava eu outra vez. Com o mesmo ar beto e a fazer frente aos polícias de saia travada e saltos altos.
Naquela altura, o José Carreira era "apenas" o cunhado do Helder, uma das minhas primeiras paixonetas (a última vez que o vi, tinha barriga, uma aliança no dedo e um ar igualmente sub-urbano), e morava exactamente abaixo de mim.
Só cerca de dois anos mais tarde é que percebi que ele era um dos mais acérrimos lutadores da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia. Lembro-me de o ver na famosa investida de polícias contra polícias e de ter ficado muito revoltada com as imagens. Morreu, salvo erro, em 2003, sem que a maior parte das pessoas tivesse sequer consciência do que aquele passou apenas por lutar pelos seus ideais.
E se me lembrei hoje disto, é apenas porque se fala hoje na morte do pai do Cavaco Silva mas, com o devido respeito, ninguém se lembra do José Carreira.
Cavaco Silva quase que conquistou uma imagem de consenso, já que este país tem fraca memória.
E, no seguimento, dei por mim a recordar a minha primeira aparição televisiva. Foi um pouco depois, por causa da PGA (não, não é a Portugália; esse é outro filme e muito posterior), tendo eu, entre outras, explicado com um ar muito sereno o que era um misantropo.
Naquela altura, eu tinha um ar muito, muito beto (lembro-me de estar de argolas grandes e douradas e de blaiser aos quadrados em tons de castanho) e ninguém lá em casa sabia bem quais eram as minhas inclinações políticas. Qual não é o espanto do meu pai e da minha avó quando, ao jantar, se deparam comigo, filmada na manifestação, sem que tivesse chegado a casa sequer com um fio de cabelo fora do sítio. E eu, impávida e serena, a pedir que me passassem a salada.
A minha avó olhou para mim, de olhos arregalados. O meu pai sorriu.
Na manifestação subsequente, lá estava eu outra vez. Com o mesmo ar beto e a fazer frente aos polícias de saia travada e saltos altos.
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