sábado, novembro 04, 2006

Os Homens da minha vida...

"O que importa não são os homens da nossa vida mas a vida que há nos nossos homens"
Mae West

Ontem, enquanto dava a volta do ipod, percebi que tenho sido de uma profunda injustiça para ele. Quando me falam de homens bonitos eu penso logo: "Hugo!". Errado. Nunca foi. Muitos anos antes, tinha eu catorze, conheci o homem mais bonito de sempre: o Russo. Duarte, para a minha avó.
Era impossível não se reparar numa criatura daquele tamanho, loira e com uns ombros capazes de nos fazer sentir no céu, de modo que, mesmo antes da festa onde formalmente nos conhecemos, eu já tinha reparado nele. O nosso primeiro diálogo foi hilariante, daqueles de cinema. Eu devia estar com aquele ar de perdida que me asssola de quando em quando.
"- Queres ir amanhã a uma festa em minha casa?"
- Convidas sempre pessoas que não conheces?
- Não. A maior parte aparece sem eu a convidar".
Eu fui, claro. E abriu-se ali a porta para tudo o que uma adolescente não deve conhecer. Sexo, drogas, dinheiro a rodos. Eu nunca fui uma "deles" mas era a namorada do chefe do grupo. No início, aceitaram-me mal: eu só fumava cigarros, pouco ou nada bebia e era uma intelectual. Andava por ali mas ia à escola e era boa aluna. Em minha casa, ninguém percebia a vida dupla que eu levava. No final, eu era o único contacto que detinham com a realidade. Pelo meu lado, eles eram a porta de entrada de um mundo estanho, diferente e vem dessa altura a vertigem do abismo. Foi ao lado do Russo que me manifestou pela primeira vez uma das minhas características mais bizarras: quando todos pensam que eu vou saltar, dou um passo atrás. E dei.
À minha maneira, eu tinha uma paixão louca por ele. Ele era lindo, era inteligente, era rebelde. Fazíamos corridas em contra-mão na Marginal. Saíamos à noite. Gastávamos dinheiro como se ele nunca acabasse. Vivíamos como se a morte nos esperasse ao virar da esquina. Simultaneamente, ele abraçava-me, eu adorava-o e éramos um casal muito pouco convencional mas feliz. Feliz no meio de alcóol, de cocaína e de um pai que lhe dava naquela altura duzentos contos por mês e várias casas para ele não o chatear.
Uma noite, depois de ele ter ido para Paris e de, fruto disso, termos acabado o namoro (sim, na minha cabeça, o problema era a distância, com as drogas podia bem, achava eu...), a morte levou-o. Ele tinha 18 anos. Eu 16.
O meu anjo foi-se. E eu fiquei condenada a dar-me com homens.

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