Conheci o Mateus provavelmente no ano de 1991. Nunca me despertou a atenção, até que, pelos anos de 1994, trocámos umas palavras e eu senti muita empatia com ele.
Foi desde logo uma daquelas amizades que nunca teve nada por detrás. Nunca vi no Mateus qualquer encanto para além do amigo. O inverso também acredito que seja verdadeiro.
Um dia, algures em 1997, o Mateus assumiu que andava com o Zé Pedro. Terei sido das primeiras a ir com eles à praia, à célebre 19, onde a única pessoa vestida era eu e os pares que passavam me gritavam ofensas por estar no meio de um casalinho. Depois disso, fomos muitas vezes à praia. Ouviamos Marisa Monte - o "Bem que se quis"-, fumavámos e até bebíamos.
Ao meu bom velho estilo, foi a única que teve coragem de perguntar quem é que era o activo (não foi bem isto que eu perguntei mas a ideia era esta). Eles passeavam de mão dada na Av.ª* de Roma comigo ao lado. Estavam como um casal na minha casa da Av.ª do Brasil e eu expulsava liminarmente quem ousasse mandar bocas.
Uma noite, logo no início do meu namoro com o loiro, levamo-lo para um bar homossexual, o Sétimo Céu e foi giro ver o Hugo completamente em pânico. Guardo memória dessas noites em que eu me apresentava de tops de um tamanho exíguo ou de vestido pelo Bairro Alto porque começava a noite com eles e acabava no Plateau.
Uns meses depois, numa mesa cheia no Movies, quando o loiro me perguntou quem é que eu achava o casal-modelo do grupo, dei-lhe uma resposta inesperada para ele (e que motivou uma das maiores discussões) mas em que acreditava piamente : "o casal-modelo, os únicos que têm futuro evidente, são o Mateus e José Pedro.".
Não tiveram, contudo.
Independentemente disso, guardo com ternura duas imagens distintas nossas. Em 1997, mais concretamente no dia 31 de Agosto, eu e o Rui acabámos. Como eu sou de grandes paixões, foi um final tristíssimo, numa fase em que eu achava que devíamos lutar ainda por nos entendermos mas em que o Rui estava demasiado perturbado para essas lides. Chorei que me fartei, certa de que o meu mundo acabava ali. O Mateus e o Zé Pedro vieram buscar-me a casa, convenceram-me a vestir o bikini e fomos para a 19. Sei que tirámos fotos porque tenho uma, muito bonita, com o Mateus e eu, com um olhar de tristeza mortal. Nunca me tendo achado nada bonita, gosto daquela fotografia. Gosto muito. E acho até que fico melhor nesses momentos do que quando me rio.
Hoje olho para aquilo, penso que mais tarde fui eu quem se recusou a casar com o Rui e, não fosse aquela evidência, parecer-me-ia impossível que tivesse acontecido.
Mais tarde, já comigo na Vice-Presidência da Associação e presumo que antes de namorar com o loiro (se não for antes, não faz sentido a recordação que tenho), ouvi de outra boca a frase assassina do "eu amo-te e, por mim, estaríamos juntos mas existe o resto do mundo e esse eu não consigo vencer". Sei que chorei, de novo, muito. Não pela pessoa em si - eu gostava da companhia mas estava muito longe de sequer estar apaixonada - mas pelo "resto do mundo" se atravessar sempre no meu caminho. Caiam-me as lágrimas enquanto eu despachava coisas no meu gabinete da Associação. Mais uma vez, o Mateus veio buscar-me. Vinha com o Florien, um homem lindo de morrer. Fomos à praia e eu disse-lhe: "Fogo, mas porque é que eu não posso ter um loiro como tu, lindo e amoroso?!"
Como se sabe, vim a ter. Só que não era amoroso. Era uma besta, disfarçado de cordeiro.
Independentemente disso, o Mateus esteve sempre lá quando eu precisei. Abraçou-me. Fez repensar quando quis desistir de tudo. Deu-me para fumar coisas que, no meio da merda toda, me faziam rir e ainda hoje acho que, com isso, me salvou a vida. Tirou-me de casa quando eu entrei numa rotina de auto-destruição pura e dura. Levou-me para o mar porque sabe que este limpa tudo. Levou-me a sair à noite para sítios onde ninguém me conhecia e ninguém me queria enga(t/n)ar. Nunca teve segundas intenções.
Mateus: estarás sempre comigo. E uma boa parte do que sou, é também obra tua.
Tenho muita pena que a vida de adulto nos tenha separado tanto. Ambos sabíamos que não podiam durar para sempre aqueles dias em que entravas na minha casa, enrolavas charros, eu bebia Moet e íamos para onde calhasse. As fotografias que tenho permitem-me ter a certeza que aquilo aconteceu. Por ora, isso basta.
1 comentário:
Como sabe, e qualquer dia estou merecedor de um novo texto só para mim, não sou entusiasta dessa sua fase, embora reconheça que o seu sentido de humor estava apuradíssimo.
Admito que o ar de mulher perdida - as que são mais procuradas, como disse com muita graça - lhe dava um certo encanto e a tornava alvo de grande cobiça. Foi, todavia, uma época de altos mas de muitos vales. Vejo-a falar do fracasso com o Rui e com o outro com alguma ligeireza relativamente ao estado em ficou. Só quem não a viu nessa altura pode acreditar que seja uma pessoa fria.
Não gostava de fosse um "tanque" de guerra. Mas sinto-me muito melhor sabendo que vive muito mais tranquila e serena agora.
Tudo mudou. No seu caso, presumo que para melhor.
Uma última alusão: a sua sorte terá estado sempre na sua pessoa. Os amigos que tem - e alguns inimigos também- são à sua imagem e semelhança. Você merece-os. Não estou a ver muita gente a passear-se com dois homens de mãos-dadas ao lado.
Bom ano. Vou merece.
M.
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