Há muitos, muitos, imensos anos atrás tropecei no famoso verso que fala da lucidez da morte. Era então uma miúda atormentada entre o desejo de se sentir viva e o incomensurável peso dos antepassados, oscilando entre um registo de sonho pela imortalidade e o comportamento de uma menina digna das melhores memórias. Adormecia com Kundera. Acordava com Beauvoir. Entre um cigarro e outro, dançava na pista do Plateau enquanto memorizava Boris Vian e bebia cubas livres como se não houvesse amanhã.
Tudo isso foi há muito tempo. Ao contrário do que possa pensar, a minha primeira dor a sério não foi (nunca poderia ser...) a morte da minha mãe. Corrigindo, foi a morte daquela que, efectivamente, foi a minha mãe: a minha avó Mila.
Não há dia que não pense que nunca lhe chegarei aos pés no que ela tinha de maior: a sua dignidade.
Só vim a perceber muito mais tarde que, na noite em que ela desfaleceu nos meus braços, eu também morri em larga medida. Porque no velório dela foram duas a enterrar: ela e a menina que acreditava que ia mudar o mundo.
Depois dessa noite o que sobrou foi um despojo de mim própria. Um grande e imenso vazio que fui preenchendo aos poucos. Claro que voltei a ler Beauvoir, Kundera e Vian. É sabido que bebi muito mais cubas livres. Também dancei no Plateau...
Mas já não era a mesma miúda. Era outra. E essa outra nunca mais parou de se sentir sozinha...
Obrigada Avó Mila. Tenho imensa pena de nunca ter estado à altura do que me ensinaste... Espero que um dia me desculpes já que eu não o consigo fazer a mim própria.
domingo, outubro 31, 2010
sábado, outubro 30, 2010
Entre uma dança e outra...
Entre uma dança e outra, dou por mim com trinta e quatro anos. Trinta e quatro anos!
Só o que tenho vivido nos últimos anos daria para encher uma vida inteira de uma mulher normal.
Só o que tenho vivido nos últimos anos daria para encher uma vida inteira de uma mulher normal.
terça-feira, outubro 26, 2010
Os dias correm...
Não tenho escrito aqui, fundamentalmente porque tenho andado entretida com os diários do Vergílio Ferreira.
Mas não só. A dor ainda não se extinguiu por completo, como é óbvio. Ainda hoje me incomoda ver as tentativas de engate que o PMF vai lançando nas minhas barbas no Face. E fico ainda mais incomodada por me sentir incomodada com este modus operandi. Talvez porque saiba que me deixei aprisionar. A minha característica mais evidente é o orgulho. O orgulho que me faz ter arrepios cada vez que penso que caí no conto de um vigário, tão batido, quanto bem-sucedido. E eu engrossei as fileiras das vítimas deste logro.
Como diz o Nuno Reis, eu sou muito parecida com a Scarlett: ando a vida toda atrás de um loiro mas devo é achar o meu moreno.
Mas não só. A dor ainda não se extinguiu por completo, como é óbvio. Ainda hoje me incomoda ver as tentativas de engate que o PMF vai lançando nas minhas barbas no Face. E fico ainda mais incomodada por me sentir incomodada com este modus operandi. Talvez porque saiba que me deixei aprisionar. A minha característica mais evidente é o orgulho. O orgulho que me faz ter arrepios cada vez que penso que caí no conto de um vigário, tão batido, quanto bem-sucedido. E eu engrossei as fileiras das vítimas deste logro.
Como diz o Nuno Reis, eu sou muito parecida com a Scarlett: ando a vida toda atrás de um loiro mas devo é achar o meu moreno.
terça-feira, outubro 12, 2010
Saint Elmo's Fire
Revi-o na segunda, após um fim-de-semana em Bragança agri-doce. De certa forma, ressalvadas certas diferenças, eu estava lá, numa das personagens. Não me visto nem nunca me vesti daquela forma. Nunca fui amante de um patrão (embora já tenha sido amante, como se sabe...). Nunca fui uma mulher fácil, seja nos afectos, seja na passagem directa para a cama. Mas estava lá.
É assustador. Tão assustador quanto eu estar convencida que o happy-end dali não se vai copiar para o esterco dourado em que se converteu a minha vida.
Por isso, reiterando uma frase que eu uso e que também lá vi: nunca pensei chegar aos 33 tão cansada... Mas cheguei. A este ritmo vou atingir os 34 ainda pior.
É assustador. Tão assustador quanto eu estar convencida que o happy-end dali não se vai copiar para o esterco dourado em que se converteu a minha vida.
Por isso, reiterando uma frase que eu uso e que também lá vi: nunca pensei chegar aos 33 tão cansada... Mas cheguei. A este ritmo vou atingir os 34 ainda pior.
quarta-feira, outubro 06, 2010
A vida que corre rápida mas a conta gotas...
Enviam-me pelo face a minha fotografia de campanha e olho para ela, entre o choque o riso nervoso. Pareço exausta. Estou exausta. É, neste momento, indisfarçável.
No mesmo transe, tendo presente aquilo que agora designo o "evento", parece que, simultaneamente, foi há uma eternidade e ainda ontem.
Este duplo sentido do tempo, rápido na minha cara e alma, e lento (na minha alma), baralha-me.
Tenho ainda saudades do sorriso dele. Daqueles olhos azuis lindíssimos, aos quais agora me apetecia deitar decapante. Tenho principalmente saudades da minha incomensurável alegria. De me sentir apaixonada. De me perder nos braços dele, nos olhos dele, no cabelo dele. Tenho aquela capacidade avassaladora de me perder em estradas sinuosas, eu sei.Talvez por isso, cresce em mim um outro sentimento que não chega a ser ódio mas é um tímido desprezo. Desprezo pela fraqueza. Pela falta de inteligência. Por me ter enganado (não sei se ele a mim, se eu a mim própria...).
E, como em tudo, uma certa revolta porque sei que estou magoada demais para poder apreciar uma dança que me foi proposta. Só sei dançar com o Diabo, está visto. Principalmente se o Diabo for loiro e de olhos azuis.
No mesmo transe, tendo presente aquilo que agora designo o "evento", parece que, simultaneamente, foi há uma eternidade e ainda ontem.
Este duplo sentido do tempo, rápido na minha cara e alma, e lento (na minha alma), baralha-me.
Tenho ainda saudades do sorriso dele. Daqueles olhos azuis lindíssimos, aos quais agora me apetecia deitar decapante. Tenho principalmente saudades da minha incomensurável alegria. De me sentir apaixonada. De me perder nos braços dele, nos olhos dele, no cabelo dele. Tenho aquela capacidade avassaladora de me perder em estradas sinuosas, eu sei.Talvez por isso, cresce em mim um outro sentimento que não chega a ser ódio mas é um tímido desprezo. Desprezo pela fraqueza. Pela falta de inteligência. Por me ter enganado (não sei se ele a mim, se eu a mim própria...).
E, como em tudo, uma certa revolta porque sei que estou magoada demais para poder apreciar uma dança que me foi proposta. Só sei dançar com o Diabo, está visto. Principalmente se o Diabo for loiro e de olhos azuis.
segunda-feira, outubro 04, 2010
Linhas alheias
Acabo de me deparar num outro local com um desabafo brutal: "Todas as mulheres foram Cleópatra na última encarnação. Eu não. Fui cão.". Dei por mim a sorrir. Já eu, que penso nunca ter sido cão, sou a Cleópatra nesta. Na anterior fui a Rita.
Subscrever:
Mensagens (Atom)