Para mim, o Natal foi sempre "O inverno do nosso descontentamento".
Durante anos e anos, pedia para me deixarem dormir no dia 23 e acordarem-me a 26. Lembro-me perfeitamente do meu entusiasmo quando o pinheiro enorme que a minha avó comprava caiu, num grande estrondo. Sempre detestei este espiríto, de me obrigarem a ser simpática, quando eu gosto mais de ser uma besta quadrada.
Percebi mais tarde que talvez o meu ódio mais juvenil se devesse à falta do pinheiro e do presépio que todos os anos a minha avó demorava horas e horas a montar (recuperei o presépio. Pedi-o como prenda de casamento ao meu pai).
Olhando para trás, uma das recordações mais engraçadas que tenho do Natal é o episódio ridículo da avaria do meu carro. Cenário: docas, cheias de homens com muito mau aspecto, onze e meia da noite da véspera de Natal. Eu e a eterna Ash procurávamos um bar para passarmos a noite de Natal. Decido pisar um duplo traço contínuo e entrar por uma zona de área condicionada à Brigada Fiscal. O carro avaria. Começa a deitar fumo. Como, meses atrás, tinha explodido uma parte (com o patrocínio dos meus amigos), a Ash saiu do carro e desatou aos berros, a dizer que ia incendiar-se outra vez. Eu vejo os homens a aproximarem-se de nós e grito também que prefiro morrer queimada a ser violada. Instala-se uma discussão enorme: um carro parado perpendicularmente a um duplo traço contínuo e dentro de uma zona cujo acesso estava vedado, a deitar fumo, e duas mulheres, uma fora e outra dentro, aos gritos. Chega um carro da Polícia e eu penso imediatamente que estou lixada. O Senhor agente aproxima-se e diz-me : "deve ser da água". Eu olho para ele e respondo, muito segura: "eu vi a água e está dentro do nível". Ele insiste. Eu começo a pensar : "Fixe, vou ser multada e este gajo é um atrasado mental". Até que ele me manda sair do carro, aponta-me para uma poça de água e diz-me: "ao passar por ali, molhou o carro. Como está quente, este fumo é a água a evaporar". Olho para ele, encosto-me ao vidro do carro, desato a bater com a cabeça no vidro e digo para mim mesma : "és burra. és completamente burra!". Ele sorriu e desejou-me um bom Natal.
E foi. Acabámos todos num bar na 24 de Julho, aos pulos a dançar.
(A primeira vez que assisti a um Natal convencional depois da minha avó ter morrido foi com a família do André. Já nem me lembrava como é que era! Habituei-me durante longos anos a ter um Natal com amigos, aos pulos em bares e discotecas. Acho que foi a minha forma de lidar com a confusão imensa em que se tornara a vida. Eram bons Natais, contudo. Sinceros e com poucas prendas.)
5 comentários:
Mas é que consigo imaginar esta cena mesmo!
Para aí desde 2001 que estás melhor. Mas eras tão naba a conduzir que era aflitivo.
O pior era quando te punhas a fumar, a falar ao telemóvel e a conduzir. Uma desgraça...
Luís.
Desgraça, nada.
Agora faço mais: leio processos e pinto-me.
Lembrei-me agora:
Não fui eu quem conseguiu enfiar um Bora num daqueles atrelados com ganchos...
O Natal... Lembra-se do Natal acho que de 1997? Passei por sua casa para lhe levar a prenda e, apesar da boa-disposição superficial, estava com um olhar terrível?
Você queria um Natal convencional. Queria a árvore. Queria o presépio. Atrevo-me a dizer que queria a família.
Não tinha nessa altura e aprendeu a viver com isso com a facilidade de quem cresceu como uma princesinha e, aos 16, largou tudo e foi viver sem dinheiro nenhum e sem ajudas.
Parece-me que, à sua maneira, conseguiu criar uma identidade sua. Uma família da qual, ironicamente, é um pilar. Direi mesmo, o pilar.
Você é mesmo admirável. Uma qualquer menina, habituada a ter tudo e deixada à solta aos 16, ter-se-ia perdido.
O André, quer-me parecer, tem muito mérito. Do que sei, o de lhe conseguir por travão e o de não se deixar enciumar pelo seu brilho.
Mas o de finalmente ter Natal é seu. Todo seu.
Beijo.
M.
Pois não. Enfiaste um Alfa Romeu 164 dentro de um banco e ainda ficaste muito espantada porque o carro ficou sem parte da frente.
Pior que tudo, ao contrário de mim, estavas sóbria.
O que é que queres de prenda de Natal? Posso fazer sugestões?
Luís
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