sábado, janeiro 06, 2007

Eu.

Entro na Lusíada de calças de ganga e camisola de gola alta, cara lavada e com o Código do Trabalho na mão. À porta, uns rapazes alegadamente recuperados pedem dinheiro para uma associação qualquer. Eu dou, depois de um piropo que me fez sorrir. Ele achou que eu era aluna e não acreditou quando um dos meus alunos se virou para ele e lhe disse que eu era advogada e que dava aulas há sete anos.
Entro na sala e deparo-me com um reencontro muito gratificante.Leio-lhes nos olhos que gostam de mim e que tinham saudades das minhas aulas. Eu não estava à espera de nada daquilo, confesso. Fiz muito mais por alguns alunos meus na outra faculdade onde dou aulas o ano lectivo inteiro e nunca fui alvo de uma recepção daquelas. Estou exausta mas aquelas caras, muitas delas com idade para serem meus avós, fazem-me esquecer tudo.
Entre eles, há um aluno de que gosto particularmente. Vê para além dos artigos do Código. É raro, hoje em dia.
No intervalo, no bar, ele pergunta-me: "Como é que aguenta?! Tanta tristeza, tanta maldade, tanta vida destruída... Vai-lhe parar tanta gente deprimida. Como é que se mantém à tona?".A pergunta é uma pedrada no charco da minha alma. Tenho andado a tratar de uma acção com mais de cem pessoas, muitas delas lançadas para a miséria. Esforço-me por não pensar e me limitar a debitar palavras no computador mas percebo naquele transe que cheguei ao limiar da minha capacidade de abstracção.
Olho para ele. Apetece-me responder-lhe que muitas vezes não me aguento. Que, em 2004, me fechei em casa e disse que não queria mais fazer isto. Que um dia telefonei ao meu pai e lhe confessei que estava muito deprimida com a maldade das pessoas e que achava que não conseguia lidar com aquilo.
Depois... Depois lembro-me que até ganhei a acção que estava por detrás daquele telefonema.
Esperança?! Não lhe chamo isso. Assisto escandalizada à extrema covardia, a pessoas a explorarem outros só para terem mais um milhão, à total idiferença deste mundo para com o sofrimento dos outros.
Acendo um cigarro. Recordo o que dizem da minha mãe. Presa em 1975, nem perante se ter apercebido que os maus-tratos lhe estavam a agravar a asma até ao insuportável, se curvou.
Lembro-me depois de um episódio que o meu pai conta sempre. Quando o meu tio avô foi sujeito à tortura do sono pela PIDE, ficou desfigurado. Numa das visitas, a minha avó levou o meu pai, naquela data um miúdo loiro que não teria mais de 5 anos. O meu pai, quando viu o meu tio, começou a choramingar. A minha avó, uma senhora lindíssima, pequena como eu, olhou para ele e retorquiu: "À frente desta gente não se chora".
A resposta está aí. Eu não me aguento. Vou-me aguentando. Certa de que, à frente de gente desta, não se chora.

1 comentário:

Anónimo disse...

Gostei particularmente do "À frente desta gente não se chora". É curioso porque é uma das máximas que sigo. Os anos fazem-nos cada vez mais "duros e secos", mas também nos transformam em pessoas mais fortes!
Continua assim, que vais sobrevivendo!
bjs, P