domingo, outubro 28, 2007

A tese e a outra.

Acendo um cigarro e só consigo pensar que dia 9 está aí a estoirar.
Hesito entre uma defesa puramente jurídica e uma outra, mais apaixonada.
Dou por mim a recordar as minhas palavras, dirigidas há uns anos a um homem: Eu sou cigarra.
Gosto de festas, é certo. Acima de tudo, do que gosto é de pensar que vivi. Que dei de mim às pessoas e às coisas. Que não fui indiferente.
Hoje vi uma rapariga, homónima minha. Há quinze anos atrás, ela era um sex symbol e eu era tida como a feiosa. Agora, tem duas filhas, está horrível e destruída. E eu, sem filhas - e, segundo os médicos sem hipóteses de as vir a ter -, tenho a pele lixada, um cabelo frágil como tudo. Tirando isso, o meu corpo não se compara com o dela. Mesmo não me achando um primor, sei ver que estou muito melhor. Até na escolha da indumentária, no meu caso tirada quase ao acaso do guarda-roupa, meia a dormir.
A vida é, de facto, muito irónica. Naquela altura, eu era a intelectual e tinha uma inveja enorme do sucesso dela junto dos rapazes. Actualmente, sei-o bem, nem sequer somos comparáveis. E eu vivi. Não desfiz as unhas a lavar a loiça. Não me deixei esmorecer em canseiras com filharada e maridos atrasados mentais. Não me passei a vestir de mulher casada, quase à laia de doméstica.
Vivi. Tive desilusões. Chorei imenso e ri-me mais. Gasto o meu dinheiro não em fraldas mas numa casa, em roupa, cabeleireiros, viagens e livros. E, olhando para ela, mesmo sabendo que o meu tempo está a esvair-se e me estou a desfazer, confesso que não me arrependo.

1 comentário:

Anónimo disse...

Isso é porque te tornaste uma daquelas loiras que levariam um padre a renegar a fé. E quem te viu e quem te vê.
Luís.