Na minha fase sub-urbana, morei em São João da Talha.
Naquela altura, o José Carreira era "apenas" o cunhado do Helder, uma das minhas primeiras paixonetas (a última vez que o vi, tinha barriga, uma aliança no dedo e um ar igualmente sub-urbano), e morava exactamente abaixo de mim.
Só cerca de dois anos mais tarde é que percebi que ele era um dos mais acérrimos lutadores da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia. Lembro-me de o ver na famosa investida de polícias contra polícias e de ter ficado muito revoltada com as imagens. Morreu, salvo erro, em 2003, sem que a maior parte das pessoas tivesse sequer consciência do que aquele passou apenas por lutar pelos seus ideais.
E se me lembrei hoje disto, é apenas porque se fala hoje na morte do pai do Cavaco Silva mas, com o devido respeito, ninguém se lembra do José Carreira.
Cavaco Silva quase que conquistou uma imagem de consenso, já que este país tem fraca memória.
E, no seguimento, dei por mim a recordar a minha primeira aparição televisiva. Foi um pouco depois, por causa da PGA (não, não é a Portugália; esse é outro filme e muito posterior), tendo eu, entre outras, explicado com um ar muito sereno o que era um misantropo.
Naquela altura, eu tinha um ar muito, muito beto (lembro-me de estar de argolas grandes e douradas e de blaiser aos quadrados em tons de castanho) e ninguém lá em casa sabia bem quais eram as minhas inclinações políticas. Qual não é o espanto do meu pai e da minha avó quando, ao jantar, se deparam comigo, filmada na manifestação, sem que tivesse chegado a casa sequer com um fio de cabelo fora do sítio. E eu, impávida e serena, a pedir que me passassem a salada.
A minha avó olhou para mim, de olhos arregalados. O meu pai sorriu.
Na manifestação subsequente, lá estava eu outra vez. Com o mesmo ar beto e a fazer frente aos polícias de saia travada e saltos altos.
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