Era suposto termos tomado café, no meio de um dia que foi de loucos.
Contrariamente ao que lhe é habitual (logo nele, o homem do método, dos horáros, das rotinas), não apareceu. Liguei-lhe. Nem reagiu.
Ao jantar comentei que devia andar tudo maluco. O Nuno que não diz nada desde o casamento do Rui. O Rui que ficou de me dar um feed-back referente a uma coisa que lhe pedi e também nada disse. Por fim, achava eu, até o Henrique.
(Nesta voragem de vida que levo, já nem tenho tempo para pensar. É saltardacama-tomarbanho-beberumcafé-fumarunscigarros-saltardedespedimentoemdespedimento. Vejo-me com trinta anos e nem sei o que andei a fazer nos últimos cinco. Tudo se resume a acções. Não as que corporizam um aglomerado de verbos que indiciariam que vivo. Acções mesmo. A Febo Moniz e a Miguel Bombarda. Foda-se. Como é que eu cheguei a isto?!)
Mando-lhe uma mensagem inócua, depois de ter enviado outra ao Nuno a chamar-lhe cretino, onde lhe pergunto com um ar despreocupado o que se passou.
Surge a resposta: "A minha mãe faleceu".
Foda-se, novamente.
Eu devia ter estranhado. Imbuída numa acção, cujo hipotético êxito nunca valerá esta distracção, nem pensei.
Pior que tudo. Dou por mim a questionar quando é que será o enterro e se será compatível com a minha agenda...
Estou louca.
Chego a casa (admitindo que tenho uma...), sento-me a ouvir o Ennio, ligo o computador e choro.
De uma forma egoísta. Porque a tristeza que me assolou é pelo Henrique. Mas, talvez principalmente, por mim.
Por aquilo em que me tornei.
(E, de manhã, o meu orgulho era que, não obstante as dores, conseguia andar de saltos altos. Se a minha avó me visse, lá se ia a réstea de orgulho em mim. E, confrontada com a crueza da morte, nem me consigo olhar nos olhos.)
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