terça-feira, fevereiro 27, 2007

Ser (in) dependente

Niguém que me tivesse conhecido na faculdade adivinharia que eu acabaria a dar aulas. Provavelmente, quero crer que poucos que me conhecem agora poderiam antever esta minha faceta.
Tenho episódios da Independente perfeitamente surreais.
Ficam alguns.
Aquele em que eu me virei para o Administrador da chafarica, depois de ele me ter gritado que eu só ficaria lá por cima do cadáver dele, e lhe respondi com um sorriso nos lábios: "Certo é que já me disseram isso várias vezes e vocês vão e eu fico". E fiquei. E ele foi.
Outro, quando perante eu ter dito que me recusava a barrar a entrada em exames aos alunos com pagamentos em atraso, porque, se a Uni não pagava aos docentes não tinha moral para cobrar a estes, me puseram seguranças à porta. Decidi que ninguém era mais teimoso que eu e paguei do meu bolso e com cheques meus as propinas em atraso dos meus alunos, acrescentando que devia fotocopiar o cheque para terem o número da minha conta e pagarem o que deviam.
Ou quando, a seguir a terem ameaçado que iam despedir-me, me convidaram para participar numa campanha publicitária e eu respondi que tinha sido modelo mas que agora me dedicava a outras profissões.
Muito passou, entretanto. Nos olhares de alguns alunos eu sentia gratidão e isso fez-me continuar a sacrificar o meu jantar, ano após ano.
Sofri ali a perda daquele a quem fui leal. Consegui manter-me, após a saída dele, sem nunca o ter atraiçoado e sempre defendendo a memória dele. Recordo que quando renegociei o contrato, referi expressamente que, se ele intentasse uma acção, era bom que soubessem que eu iria dizer a verdade.
Da nossa amizade - dele e minha - fizeram mil filmes, ora dizendo que eu era amante dele, ora dizendo que tínhamos acabado.
Hoje tenho vergonha. Muita vergonha. E, pese embora me esteja a rir por fora, a verdade é que uma frase dita pelo meu Amigo está a ecoar insistentemente :"Fizeram-se ali milagres. Você viu e fez muitos. Muitos para quem tinha aquela idade. Eles estragaram tudo.".
Eles estragaram tudo. Por piscinas. Por diamantes. Seja lá pelo que fôr.
Estou muitíssimo triste. Principalmente, pelos alunos. Mas também por mim. Porque dei o que talvez tinha de melhor. E estragaram tudo.
Também me estragaram a mim.

2 comentários:

Menina Veneno disse...

Falta a joia da minha coroa, a vingança do chinês...
Espero ver este texto editado brevemente.

Anónimo disse...

Minha querida:

Só quem não a conhece bem é que poderia pensar que você é aquela criatura fria que muitas vezes se lhe vê.
Eles, seguramente, não estragaram tudo.
Não estragaram os momentos que ali viveu. Não estragaram a estima que os seus alunos têm por si e o respeito que consegue inspirar.
Isso é seu. É património de todos nós. Não deles.
M.