quinta-feira, fevereiro 08, 2007

O mundo ao contrário

Ele diz-me: "Ajuda-me, por favor. Tenho uma amiga que está grávida e estão a tentar despedi-la".
Há algo estranho na forma como ele entoa a palavra "amiga" e não resisto: "És o pai?".
Resposta: "Tu és terrível. Acho que sim. Mas é o segundo. O primeiro morreu."
"Quando?"
"Tu sabes quando...".
Hesito: "Tu não me estás a dizer que me tentaste levar para a cama quando o teu filho morreu, pois não? E de caminho não me estás a pedir para ajudar a Ana, ou estás?"
Uma pausa.
"Estou."
Fico furiosa. "Então, meu grandessíssimo filho da mãe, o teu filho morre e tu tentas engatar-me? Mas afinal que espécie de homem é que tu és?".
"Também sabes a resposta a isso".
Agora a pausa é minha. Passa-me pela cabeça o texto de uma mensagem que recebi e que apaguei, certa de que o assunto era o mesmo de sempre e cansada de repetir a palavra "não".
Ele insiste : "Ajuda-me".
Vêm-me à memória as noites no Jardim da Música, há seis anos atrás.
"Não és tu que precisas de ajuda. É ela. E não te parece um bocado absurdo que eu seja advogada da mãe dos teus filhos? E ela diz o quê a isto?! Ya, eu odeio-a. Detestava os olhares que lhe deitavas e sabia que algo de estranho se passava mas agora quero-a como advogada?"
E é suposto eu sentir o quê, Luís?! Tira-me deste filme.
Escusado será dizer que acabei a dizer-lhe: "Eu explico-te a ti, ensino-te, vou-te guiando. Mas nada para além disto. Não quero que ela entre neste escritório e, à primeira que faças, ponho-te na rua. E deixa-me que te diga: tu és uma merda. Um perfeito escroque. Metes-me nojo. Percebeste bem o sentido da palavra nojo, certo?".
Nem contesta. Diz-me só: "A culpa nunca foi tua. Nem dela. Eu é que sempre fiz merda. Eu é que nunca consegui viver com o teu dinheiro enquanto eras miúda e com a tua inteligência quando passaste a mulher. Mas, cada vez que te via, cobicei-te. E isso nada tem de mal. Metade daquele bar fazia o mesmo, ainda que nunca tivesses percebido."
É impressão minha ou o mundo está mesmo ao contrário? Sou eu que sou antiquada ou esta gente não tem valores nenhuns?
Credo. Cada vez tenho mais saudades dos tempos de casulo da Avenida de Roma.
Pobre daquela mulher. Está tão enredada na teia que ele tece que nem percebe que o homem que escolheu para pai dos filhos não vale nada. Rigorosamente nada.
E eu dou por mim a pensar que tudo isto é demasiado tenebroso para mim. Morre-lhe o filho e ele tenta meter-se comigo?!
Tudo isto é demasiado bizarro. E triste.

1 comentário:

Anónimo disse...

Fui até ao teu escritório, como sabes. Vi-te num estilo que não conhecia. Com um ar muito profissional.
Inantingível. Sem me dar uma magem mínima para outro assunto que não o problema da Ana.
Acho que tive a dignidade de te anunciar o que ainda não sabias.
No mais, estás igual. Bonita.
Percebo agora que tudo me pareceu a uma despedida.
Mesmo assim, foste digna. Muito mais do que a situação merecia.
Um beijo.
Luís.