domingo, outubro 31, 2010

O que sobrou...

Há muitos, muitos, imensos anos atrás tropecei no famoso verso que fala da lucidez da morte. Era então uma miúda atormentada entre o desejo de se sentir viva e o incomensurável peso dos antepassados, oscilando entre um registo de sonho pela imortalidade e o comportamento de uma menina digna das melhores memórias. Adormecia com Kundera. Acordava com Beauvoir. Entre um cigarro e outro, dançava na pista do Plateau enquanto memorizava Boris Vian e bebia cubas livres como se não houvesse amanhã.
Tudo isso foi há muito tempo. Ao contrário do que possa pensar, a minha primeira dor a sério não foi (nunca poderia ser...) a morte da minha mãe. Corrigindo, foi a morte daquela que, efectivamente, foi a minha mãe: a minha avó Mila.
Não há dia que não pense que nunca lhe chegarei aos pés no que ela tinha de maior: a sua dignidade.
Só vim a perceber muito mais tarde que, na noite em que ela desfaleceu nos meus braços, eu também morri em larga medida. Porque no velório dela foram duas a enterrar: ela e a menina que acreditava que ia mudar o mundo.
Depois dessa noite o que sobrou foi um despojo de mim própria. Um grande e imenso vazio que fui preenchendo aos poucos. Claro que voltei a ler Beauvoir, Kundera e Vian. É sabido que bebi muito mais cubas livres. Também dancei no Plateau...
Mas já não era a mesma miúda. Era outra. E essa outra nunca mais parou de se sentir sozinha...
Obrigada Avó Mila. Tenho imensa pena de nunca ter estado à altura do que me ensinaste... Espero que um dia me desculpes já que eu não o consigo fazer a mim própria.

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