Fecho os olhos, acendo mais um cigarro e assalta-me uma vontade de chorar avassaladora. Passam por mim imagens de momentos de felicidade e partilha incomensuráveis, alturas em que olhámos a vida de frente e soubemos sorrir para ela.
Aquele ataque de riso que me arrancaste no meio das minhas lágrimas. A festa que te fiz, a medo, no cabelo, no único dia que te ouvi lamentar a falta de uma família. A nossa valsa em plena Avenida de Roma. A forma como me amparaste no funeral do Miguel. A tua promessa de me pegares ao colo ao som do Fix You. O teu olhar de esperança quando vesti o vestido cor-de-rosa.
Desapareceu tudo. Tudo. E, por mais que gosto de ti, não te consigo perdoar. Não consigo. Não consigo aceitar que a última imagem tua a que tive direito tenha sido um corpo meio congelado na morgue. O corpo que tantas vezes me abraçou, com quem tantas vezes dancei. Não consigo perdoar que me tenhas deixado cada vez mais só no meio de uma multidão que me acotovela e me rasga a alma.
Dizias tu que eu tinha o dom da vida e que o resto de vocês só estava à procura de um buraco para se esconder. Deixa-me que te diga que muitos dias houve em que só me mantive à tona porque me seguravas o braço. E nem me deste a oportunidade de tentar segurar-te a ti. Não te posso perdoar.
2 comentários:
Oh pá. Que merd@, pá! Uma abraço Xaxão, um abraço.
Pois, num curto espaço de tempo, foi o segundo.
Ao menos no grupo dos "radicais livres" a malta é solidária. Mata-se e vai logo outro a seguir...
Enviar um comentário