A minha avó bem dizia que eu era feita de cristal.
A idade vai-se instalando em mim, transmitindo sinais insinuosos. Para além das rugas, das manchas na pele, da celulite, vêm as mazelas. Primeiro a inexplicável dor nas costas que me fez ir defender um relatório de mestrado completamente drunfada. Depois nos ombros. A seguir, segue-se aquele episódio ridículo dos dedos que se repete mais tarde. Por último, desfiguram-se os ossos do pulso. Mais dores. E a incerteza de quem se vê a mudar a um ritmo estonteante sem razão aparente para tal.
Durante as férias, deu-se aquela cena de eu já não conseguir cortar o bife e ter desatado a chorar em pleno restaurante.
Volvidos quase dois meses, os pulsos continuam quase na mesma. Tenho dias em que estou dependente dos outros para o que há de mais usual, como baixar as calças para ir à casa-de-banho. Tenho outros em que, ignorando as dores, consigo fazer tudo sozinha. Por último, tenho outros em que perco a sensibilidade nas mãos e as coisas desvanecem-se nas minhas mãos como areia numa tarde de vento.
Pior que tudo, dou por mim a pensar que os pulsos podem ser apenas o início.
Tento viver com isto, claro. Qualquer dia já mando piadas, no estilo de que a doença me facilitou algum relacionamento.
Por enquanto, a única coisa que consigo pensar é que as mãos fazem imensa falta. Muito mais do que para me maquilhar. Para escrever umas linhas. Para acender um cigarro. Para ler. E, porque não?, até para fazer uma festa ou dar um abraço.
E agora deixei de ter tanto orgulho nas minhas pernas.
2 comentários:
A sua avó dizia que era de cristal. Eu acho que é de porcelana.
Tudo se irá resolver, minha querida. Tudo. E verá que ainda se vai rir disto. Como sempre soube rir-se das adversidades.
M.
Quando te conheci vi em ti uma lutadora.
Hoje que te conheço muito melhor digo-te luta, não te deixes vencer pelas dores.
GMTD
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