"Quase
Do alto dos teus trinta e oito anos recomendas-me calma, ponderação. Insinuas que devo baixar a cabeça, ser dócil e aceitar da vida a esmola que ela me dá como se nada mais relevasse que (sobre) viver cada dia, nesta dor a conta-gotas.
E tu faze-lo, revivendo a cada transe as páginas da tua vida, represtinando existências passadas, fazendo apelo ao que já não é e, seguramente, nunca o voltará a ser.
Preferes um correr dos dias certinho, tudo no sítio certo, muito arrumadinho, o futuro ao alcance de uma equação aritmética. Talvez por isso, e se calhar principalmente apenas por causa disso, tu acatas as ordens, resignas-te ao papel de segunda linha e terceiras linhas, aceitas sem reservas o que te dão com um muito católico sorriso de agradecimento nos lábios.
Mas eu... Eu vivi a infância entre o melhor de dois mundos e o pior pesadelo de uma miúda com dois dedos de testa. Sobrevivi a uma adolescência de excessos e defeitos apenas e tão somente pela fúria de demonstrar que era capaz. Capaz de vingar, mesmo não tendo a cara da minha mãe e a força do meu pai. Capaz de crescer num mundo hostil, sem me ajoelhar ou vergar.
Cada vez que um gajo qualquer me sussurrava banalidades ao ouvido, eu ria-me dele mas, acima de tudo, desta sociedade hipócrita e mesquinha que tudo reduz a sexo e a dinheiro.
Cada vez que me elogiavam o sentido de humor ou o espírito, eu não deixava também de sorrir, certa de que, tal como o Fernando Nogueira bem disse, este mundo só gosta das pessoas depois de mortas.
Os anos foram correndo, trepando inexoravelmente sobre mim. Para além das primeiras rugas, foram muitas as noites de vinte e quatro horas que se abateram sobre mim, nada mais me restando que a impotente revolta das lágrimas e a esperança que a luz gélida me devolvesse a esperança.
É verdade que a máquina irrevogável do tempo me tragou as ilusões e levou o que tinha de melhor. É verdade que do que fui já pouco resta.
Mas resta-me a dignidade de ainda não ter vergado. De, contrariamente a ti, não alinhar junto de interesses instalados. De não escolher pelo mais seguro.
Sabes, eu só quero ter o direito de ser eu própria, num mundo que ainda é dos homens. Não me escondo atrás de uma moralidade bacoca de vícios privados e públicas virtudes. E isto nada tem a ver com manifestações de bom ou mau feitio, num ambiente profissional onde nunca me viste. Mais uma vez, e sem que tal te tivesse sido solicitado, falaste sem saber. Mais uma vez, agora fortificado pela ida para o … que te dá laivos de arrogância insustentada, te permitiste dar conselhos sobre o que não sabes. E, desta feita, decidiste imputar-me a mim o que desconheces, não deixando de ser revelador que, no que a ti concerne, te vás desculpando reiteradamente.
Provavelmente, nesta vidinha medíocre, são aqueles que como tu vingam. Provavelmente, serás um objecto de cobiça e tido como exemplar para terceiros. Provavelmente, daqui a dez já nem cá estarei para contar a história. Mas, sabes?, nada disso importará se tiver morrido de pé.
E quanto a tudo o resto... O erro foi meu. Uma noite de profundo desespero o meu amigo fez-me uma descrição brilhante de mim mesma, rematando para nunca confiar em quem não me percebesse. Tu nunca me percebeste. E o erro não foi em ter saído da tua vida. Foi ter deixado que esta história se arrastasse tanto tempo. Demasiado tempo.
Na verdade, a profunda paixão que tive/ tenho (?) por ti não me deixou ver isto. Nem após as recíprocas bofetadas. Nem após as tuas birrinhas e os meus berros. Mas a nossa história há muito azedou. Como sempre tinha estado destinado, na exacta medida que todos podiam ver, excepto eu. Tu queres uma doméstica que ganhe dinheiro, alguém intelectualmente inferior que te admire e bajule. Alguém que te faça esquecer fracassos anteriores e te deixe brilhar sozinho. Eu quero alguém que me dê colo e me faça esquecer o passado. Quero alguém que me dê segurança.
Temo bem que nunca tenhas compreendido nada de mim. Temo bem que nunca tenhas percebido que eu sou muito mais a pessoa de há um ano atrás que esta que agora vês, toldada pelo extremo cansaço e profundamente desiludida. Temo bem que tenhas apagado essas memórias. Temo bem que persistas em fazer insistentes avaliações, assentes numa personalidade transitória e efémera. E pergunto-me: e isso importa? Importa. Importa muito. Mas não suficiente.
Desculpa se insisti nos últimos dias. De facto, tinha saudades tuas. Não o volto a fazer. Percebo agora que nem tu és a pessoa que julguei nem eu sou aquela de que falas. Por isso, te peço de facto desculpas.
Talvez por isso tenhamos estado sempre "Quase" lá. Mas quase é muito pouco, vejo-o agora claramente. E resta-me pedir desculpa por não o ter visto antes. "
4 comentários:
CHIÇA!
Foi há muito, muito tempo. E o amigo fui eu.
Disse-lhe que você era um paradoxo.
Uma pessimista que, contudo, lutava sempre até ao fim.
Uma criatura de grande fragilidade física mas uma rocha por dentro.
Cheia de valores mas muito condescendente com os outros. Muito liberal com os demais e de grande conservadorismo consigo mesma.
Tão depressa gélida e tão rapidamente quente.
Capaz de matar com o olhar e de fazer viver com umz sorriso.
Um misto de femmne fatale com uma criança doce e ingénua.
Sabe? Continua ser isso tudo.
E isso é notável.
Uma última nota.
Não foi o seu expoente máximo de crueldade mas anda lá perto.
Só um comentário... As pessoas não mudam.
Moldam-se, mas não mudam.
Não se contraria a sua própria natureza.
bj, P.
ps: no teu caso não é nada mau!!!
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