Uma manhã destas recebo uma chamada no meu escritório. É o Nuno (outro Nuno, portanto; agora que penso nisso, a minha vida é uma repetição de nomes) actualmente Director de um organismo importante no campo da arbitragem).
Eu e o Nuno fomos muito amigos durante os cinco anos de faculdade, dizendo-se até que éramos mais do que isso. Mas não éramos. Nunca deixámos de ser grandes, grandes amigos. O Nuno era alto, entroncado, olho azul. Tinha a particularidade de nunca ter frio e vestir uma mera camisa em pleno Inverno. Fazia furor entre as meninas embora eu nunca o tivesse achado giro. Havia qualquer coisa no olhar dele - gélido e alucinado - que me fazia separar os campos. Devo ter sido a única mulher que ele abraçou ou que pefou ao colo na praia sem nenhuma segunda intenção.
Foi também o meu par no baile de finalistas (e deu-me cabo do vestido, num tango que deu muito que falar e que acabou comigo a ter uma racha até quase ao rabo durante o resto do baile), íamos à praia juntos, falávamos de raparigas e de rapazes, de amores e desamores. Foi o único - a não ser o outro senhor dos olhos azuis - a perguntar-me o que me tinha passado pela cabeça para andar com o Hugo. Assim de chofre: "tu és tão inteligente, porquê, Rita? Era cama?". Respondi-lge que gostava mesmo dele e ele limitou-se a retorquir: "Então ainda é mais incompreensível".
Ainda me lembro do ar da Rita loura a olhar para nós quando, na praia de Carcavelos, decidimos que, se o vento tinha levado mais de metade dos apontamentos, isso significava claramente que essa matéria não ia sair. E não saiu.
Ou quando o Jorge Miranda me foi chamar à aula de Filosofia do Direito porque o Nuno decidiu bater no Miguel Silva e não havia quem os conseguisse separar.
Ou, por último, quando apresentámos o trabalho também em Filosofia do Direito, o qual acabou com ele a pegar-me ao colo e a deitar-me à força em cima da mesa da assistente, num anfiteatro. Já não me lembro o que pretendia ele provar com tal mas lembro-me de a assistente - Susana Maltez- ficar com os olhos arregalados e eu ter chorado a rir. Tivémos 16 no trabalho mas com uma notação de que não era necessário levarmos as nossas teses tão ao extremo.
Volvidos dez anos desde o final do curso, fomos almoçar.
Ele está muito parecido mas está cheio de rugas. Começou com uma apresentação muito formal e ia continuar nesse registo até que eu lhe disse: "Pára lá com isso. Estás a falar comigo, lembras-te?. Explica-me lá se esta merda funciona ou não e vamos almoçar os dois".
E depois... E depois andámos dez anos para trás e de repente éramos os dois de novo jovens, irreverentes e cheios de garra.
Foi um bom almoço.
Obrigada, Nuno.
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