Há cerca de 18 anos atrás eu era frequentadora diária da Silvia, pastelaria essa que ficava a um minuto da minha casa.
Um desses dias, um ser (que nós por maldade chamámos "podre" mas que tinha a alcunha de Tó Melão) disse que eu era bonita. Acho que foi a primeira vez que um homem me disse tal.
A nossa história cruzou-se depois por causa do Virgílio, à data comissário de bordo, quinze anos mais velho, que fazia parte do grupo dele e com quem eu namorei.
O Tó Melão era o típico homem generoso, um pouco tonto, que estava nitidamente perdido. Ainda eu namorava com o Virgilio e o Tó Melão meteu-se na heroina mas forte e feito. Ficou-me para sempre na memória a imagem dele e da namorada, com uma brutal "moca", na esplanada da Silvia. Foi nesse dia que eu decidi que, desse por onde desse, nunca experimentaria drogas duras porque, nunca por nunca, chegaria àquele estado.
Uns anos mais tarde, vi o Tó Melão a arrumar carros à frente do Vává e ele disse-me que eu fui a única daquele grupo do virgílio que lhe falava.
Entretanto, soube-o recuperado e fiquei contente porque, daquela gente toda, ele era o melhor.
Este fim-de-semana, na Mexicana, num café com as Anas, vi o Tó Melão, a cambalear, com uma garrafa de vinho tinto na mão. E fiquei triste. Houve um momento em que nos fitámos um ao outro e eu senti o meu chão a descer...
Tó Melão, tenho muita pena. Muita pena mesmo.
1 comentário:
Há gente que desce ao inferno para de libertar da droga e depois entra num inferno maior que é o de viver na rua. Aqui bebe-se para aquecer e bebe-se para esquecer...
É complicado...
:(
bj
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